Adoção de animais: um ato que muda não só a vida dos bichanos

Há milhares de animais abandonados pelas ruas em todos os cantos do mundo – não só no Brasil e em Santa Catarina. Nos grandes centros urbanos este número duplica. Os animais degradados, sem tutores e sem lares são problemas não apenas sociais, mas ambientais. Os bichinhos ficam expostos nas ruas a doenças, precisam buscar alimentos em lixões, correm o risco de morte por atropelamento ou envenenamento, além de  sofrer maus tratos. Com o inverno chegando, os animais são vítimas não apenas da fome e da sede, mas do frio das ruas.

Hoje, por todos os cantos do país, encontramos ONGs que buscam ajudar os animais de ruas, os cuidando, alimentando, muitas vezes castrando, para encontrar um novo lar. Além do mais, adotar significa dar uma nova chance, o recomeço para o animal que está degradado, sofrendo e sem cuidados pelas ruas. Os filhotes costumam ser os mais procurados nos abrigos, mas os adultos já estão socializados e aprendem com facilidade as regras do novo lar – pontos que são esquecidos por aqueles que decidem adotar um bichano.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que em 44% das casas dos brasileiros vive pelo menos um cachorro. Por mais que o número seja expressivo, estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 20 milhões de animais habitam as ruas no Brasil. Todos os bichinhos possuem sentimentos e são inteligentes. No caso dos que foram adotados, são gratos e expressam essa gratidão com carinho e companheirismo aos seus donos. E além de retirar um animal das ruas, o cuidando e alimentando, é uma maneira de contribuir para que o quadro gigantesco de bichinhos degradados pelas ruas venha a diminuir.

 

Adoção ao olhar de uma veterinária

 

Para a veterinária Ana Cláudia Pezente, os animais que vivem nas ruas estão sempre mais suscetíveis a doenças como zoonoses, pois não são tomadas todas as medidas preventivas necessárias – como a vacinação. “Sem contar que a prenhes é um fator que precisa ser controlado, pois não queremos mais e mais animais sofrendo pelas ruas, a castração social é sempre uma ótima opção”, salienta a veterinária. Outros fatores preocupantes quanto os animais que moram nas ruas, segundo Ana Cláudia, são os maus tratos, o frio, a fome e a sede que acabam contribuindo para a baixa imunidade que facilita esses animais a obterem doenças.

Quanto à adoção, a veterinária relata ser um fator muito importante, pois “adotando e castrando o animal, aos poucos vamos contribuindo para diminuir o número de bichos abandonados pelas ruas”.

 

Benefícios de ter um animal

 

A psicóloga Clarice de Mesquita relata que o carinho das pessoas com os animais é quase uma atitude inconsciente, de afetividade. O ser humano não espera nada em troca, pois sabe que tem o animal e por instinto os bichinhos em casa começam a identificar às chegadas dos donos, quando estão, a hora da comida, entre outros momentos rotineiros. “Apesar da espécie todos os bichos criam laços afetivos ao serem tratados com carinho. O animal age quase que por instinto e o ser humano é quase que inconsciente, pois dá o carinho e não espera nada em troca do bichinho”, salienta a psicóloga.

Diferente de quando tem que dar carinho para outro humano, pois “há pessoas que tem dificuldade de se aproximar, de afetividade e ficam esperando um retorno, onde ocorre as nossas frustrações”. Além do mais, muitas pessoas têm dificuldade de expressar seus sentimentos, os animais de estimação afloram a demonstração de amor e carinho, podendo ajudar até mesmo nas relações pessoais entre os humanos.

Clarice conta que o animal nos chama a atenção, pois nos trata com carinho sem esperar  nada em troca, sem contar a forma alegre que o animalzinho nos espera quando chegamos em casa depois de um dia cheio de trabalho e compromissos.

 

Centro de Controle de Zoonoses de Tubarão

 

Todos os animais que estão abrigados no CCZ estão a espera de adoção.

 

Em Tubarão, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) funciona das 7h às 13 h, contando com dois profissionais da área da medicina veterinária, uma especialista em animais de grande porte, duas pessoas que limpam as baias e alimentam os animais, tem uma estagiária estudante da Unisul, uma pessoa responsável pela limpeza e o administrador do CCZ, Volnei Miranda – conhecido como Nei. Além dos cuidados com os animais que estão no CCZ, a equipe realiza fiscalizações, tanto nas ruas quanto nas residências. Atendem também as pessoas de baixa renda que vão ao CCZ e precisam castrar seus animais, os que moram nas ruas e aqueles que estão a guarda de pessoas ligadas a ONGs.

No momento, há cerca de 90 animais adultos abrigados no Centro de Controle de Zoonoses, e em torno de 15 filhotes que foram degradados nas proximidades do local. Nei Miranda, o administrador do CCZ, faz um apelo para que “as pessoas parem de degradar animais nas proximidades do Centro de Controle de Zoonoses e em qualquer outro local da cidade, e que ajudem trazendo os animais para castrar”. Além do mais, as castrações no CCZ são feitas gratuitamente, sendo um trabalho realizado pela prefeitura de Tubarão, agrupado junto da Fundação Municipal de Saúde. “A prefeitura nos dá todo o apoio necessário para cuidar dos animais, pois não cobramos nenhum tipo de trabalho feito no CCZ, é tudo custeado pela municipalidade”, salienta o administrador.

Os animais que estão abrigados no CCZ são alimentados diariamente, sete dias por semana, com ração de qualidade. Os trabalhos no local funcionam sete dias por semana também, pois no sábado e no domingo duas pessoas são responsáveis de ir ao CCZ para tratar todos os animais e limpar as baias. Quanto à adoção de animais que estão abrigados no CCZ, basta que as pessoas compareçam no local com um comprovante de residência em mãos, o xerox da identidade ou do CPF, para anexar no cadastro que será feito.

Caso seja um filhote, o animal já sairá no CCZ vacinado com a carteirinha, chipado e ficará um cadastro no CCZ e o outro com o responsável pela adoção. Se for necessário fazer um atendimento, já saberão que foi adotado no local e prestarão todos os cuidados necessários. “O adotante já sai do CCZ com o animal castrado, vacinado, vermifugado e chipado”, enfatiza o administrador. Há cachorros, gatos e dois cavalos para adoção no momento no Centro de Controle de Zoonoses de Tubarão.

Para os interessados em conhecer o local ou caso queiram adotar um animal, o CCZ está instalado ao lado do cemitério Horto dos Ipês, no bairro Monte Castelo em Tubarão. É possível entrar  contato também  pelo telefone (48) 3621-2172.

 

Associação Protetora dos Animais de Timbé do Sul

 

Na cidade de Timbé do Sul, foi criada a Associação Protetora dos Animais de Timbé do Sul (APAT).  Fernanda Sachet Albino, uma das 15 pessoas que formam a diretoria e o conselho fiscal da associação, conta que em abril de 2017 foi criado um grupo no WhatsApp para reunir as pessoas que tinham em comum um trabalho ativo com os animais. Todavia, foi em abril de 2018 que se reuniram para iniciar e formalizar a associação. “Colocamos no papel a ideia, algumas atividades ganharam força e as que estavam em andamento ganharam mais atenção”, lembra Fernanda. 

Além do trabalho feito pela diretoria e o conselho fiscal, há também os associados que contribuem com R$ 10,00 mensais ou doações de ração, mantas, medicamentos, entre outros, para colaborar com as ações feitas pela associação. “Acabar com o sofrimento dos animais maltratados e abandonados é um dos nossos objetivos, pois temos a preocupação com o bem estar deles. Além do mais, é preciso diminuir a população dos animais nas ruas e as zoonoses”, salienta.  A APAT inicialmente recebe informações sobre os casos e providencia o resgate, e em casos extremos, faz os primeiros socorros.

Procura o atendimento veterinário, arrecadando fundos para castrações e cuidados básicos, além de doações para alimentação.  Os participantes da associação preparam os animais para a adoção responsável, conscientizando também a população quanto ao zelo e cuidados com esses animais. “A importância da associação é para conscientizar que o animal sofre, sente dor, frio, fome, sede, que tem sentimentos, mostrando que um grupo de pessoas se interessa por estes seres encoraja outras pessoas que querem ajudar e não sabem como”, relata Fernanda.

 

Relatos de pessoas que adotaram animais

 

Dóris e Lola

 

Lola e Dóris são inseparáveis.

 

“Em outubro de 2017 adotamos a Dóris e a Lola. Nosso cachorro havia morrido há um mês e minhas filhas queriam outro bichinho, mas eu e meu marido não queríamos. Até que um dia a noite uma afilhada minha – que foi quem encontrou a Dóris com seus quatro filhotes em uma construção – chegou na minha casa com a Lola e a Dóris de surpresa. Minhas filhas tinham armado tudo! No início fiquei muito surpresa, mas logo me apeguei as duas. A Dóris e a Lola trouxeram muita alegria, proteção para casa, sensação de casa cheia. Elas são muito carinhosas e companheiras, todos os dias elas “aprontam” algo novo que nos faz rir e dão certo trabalho, mas vale muito a pena. A Dóris é uma mãezona para a Lola, é incrível como ela cuida e protege a filha”. Cleo Rosana Rovaris Pessetti  – Timbé do Sul.

 

Ginger e Aurora

 

Aurora e Ginger tirando um cochilo.

 

“Os nomes dos meus gatos são Ginger e Aurora. Eu tenho o Ginger há cinco anos e a Aurora há uns quatro anos. Não sei a idade certa dela por ser adotada, mas chegou lá em casa quando ainda era filhote. A história da adoção da Aurora é muito engraçada, minha tia ouviu uns miados em um terreno baldio do lado de casa e foi procurar o gato, à noite, e enquanto procurava uma mulher estava passando pelo local e ofereceu ajuda, entrou no matagal e achou a gata, que foi levada para casa. No outro dia minha tia viu um gato correndo pelo mesmo terreno e pensou que fosse a Aurora e foi buscar, mas descobrimos que era um irmão dela. No fim, meu irmão o adotou. Os meus gatos representam alegria e companheirismo, como moro sozinha eles viraram meus melhores amigos, e ainda, filhos. Às vezes paro para pensar em como pode o ser humano ser  tão cruel a ponto de não amar os bichos, tão indefesos e que têm tanto amor e carinho pra dar e receber. É uma troca de atenção, amor e afeição diária”. Luisy de Albuquerque – Tubarão.

 

Pablo
Pablo é um gato muito dócil.

 

“O Pablo foi adotado em março de 2017. Meu pai o encontrou em um terreno perto da minha casa, era um filhotinho com mais ou menos um mês de vida. Quando meu pai o viu não resistiu, trouxe o gatinho para casa e foi amor à primeira vista. Ele trouxe muita alegria para o nosso lar, por ser um gato muito doce, ama ganhar carinho, é companheiro e além de tudo é a fofura em forma de gatinho com esses olhinhos vesgos.” – Victoria Araujo – Gravatal.

 

 

Bolinho
Bolinho é um gato muito preguiçoso e comilão.

 

“Adotei o Bolinho há um ano, ele morava na rua com mais uns oito irmãos. Era muito magro, com o olho machucado e comia sobras de comida. Quando chegou na nossa casa ele sentia muito medo de tudo, mas comia bastante, acredito que por ter passado muita fome quando morava nas ruas. Aos poucos foi engordando, fizemos as vacinas e começamos a tratar a úlcera do olho esquerdo do gatinho. Essa úlcera ele adquiriu provavelmente em uma briga de rua, pois precisava se defender. Eu já possuía um cachorrinho em casa e eles foram se adaptando e se conhecendo aos poucos. No começo, os encontros entre os dois eram monitorados para que ninguém se machucasse, mas hoje eles são verdadeiros irmãos, um rouba a comida do outro e brincam de “lutinha”. O Bolinho me ensinou a amar os gatinhos e trouxe muita alegria para a nossa casa.” Catieli de Medeiros – Tubarão.

 

Gadelha e Sol
Gadelha ao chegar do pet shop.

“Lembro que era um sábado, o pai foi buscar mercadoria e quando voltou para casa, abriu o portão e um cachorro havia entrado em nosso pátio. Era um dia chuvoso, em meados de 2016. Ele estava muito sujo, com o pelo grande e com carrapatos. Demos comida para o cachorro e a mãe o colocou para fora do portão da nossa casa, mas ele ficou parado no mesmo lugar, na chuva. Foi então que meu pai disse para pôr o cachorrinho para dentro do pátio. No outro dia de manhã a Nina, nossa cachorrinha, ia ao pet shop, então decidimos levar o Gadelha (o nome escolhido mais tarde para o cachorro) junto com ela. Avisamos o menino que trabalhava no pet shop que ele havia aparecido em nossa casa, foi posto anúncio para tentar encontrar os donos, e até hoje ninguém apareceu. Foi então que meu pai pediu que o anúncio fosse retirado e adotamos o Gadelha. Hoje ele é muito dócil, mas no começo, dormia até mesmo no chão por não ser acostumado e tem muito medo de vassoura até hoje. O Gadelha virou o xodó aqui de casa, o pai e a mãe gostam muito dele e a nossa cachorrinha, a Nina, também fez amizade”. Claudinha Behenck – Araranguá.

 

Sol é um gato reservado.

 

“Já o Sol, o gatinho que também adotamos, chegou aqui em casa em um domingo de manhã de Páscoa. Começou a miar na sacada da mãe, ela abriu a cortina e ele estava a olhando. Ficou com dó, deu comida e não sabemos até hoje se alguém o abandonou em nossa casa. A mãe queria pôr o nome dele de Pasqual por ser dia de Páscoa, ou de Sol por ser um domingo de sol. Acabamos escolhendo o nome de Sol. O meu pai não gostava muito de bicho, mas hoje o gato é o xodó dele, além do Sol não gostar de carinho de ninguém aqui de casa além do pai”, acrescenta Claudinha.

 

Texto: Christina Búrigo