Aluno supera vício e publica livro

O acadêmico da sexta fase de Jornalismo publicou seu primeiro livro, baseado em histórias reais, que terá lançamento no dia 20 de novembro

Alice Goulart Estevão
Curso de Comunicação Social de Tubarão

ImagemReader

       Reginaldo Osnildo perdeu a mãe aos 13 anos. Foi levado para a Casa Lar, em Palhoça, por assistentes sociais, pois seu padrasto era suspeito de ter assassinado-a. Suspeita que foi resolvida quando a biópsia mostrou que a causa tinha sido um ataque fulminante. Perdeu contato com seu pai biológico aos seis anos porque a família paterna era envolvida com vários problemas. Após um tempo, um tio seu conseguiu sua guarda, enquanto seu meio irmão foi morar com outro parente.

       Apesar das inúmeras tentativas do tio lhe tentar disciplinar, Reginaldo transmitia seu sofrimento em forma de rebeldia. No seu primeiro dia de volta às aulas, não suportou as piadas dos outros estudantes, o que o levou a lançar uma cadeira sobre eles. Expulso no primeiro dia na escola, seu tio começou a ter uma educação mais rígida com o adolescente, proibindo que ele visse seu irmão.

       Sua reação foi mais revolta. Fugiu de casa para ir morar com a família do padrasto, mas não o aceitaram. Depois disso, o jovem caiu na rua, onde conheceu pessoas que o acolheram. “Fui morar com ‘amigos’. Na verdade eram os donos do morro, que mandavam em tudo”, conta. Aos 14 anos começou a usar drogas. O que o impediu de largar a escola foi a mãe de uma amiga, que o acolheu e conseguiu uma bolsa de estudo para ele.

       Aos 18, foi preso pela primeira vez por porte de drogas. Todavia, não foi indiciado. “Eu caí nessa vida de drogas, crack porque não aceitava que as pessoas me ajudassem. Não conseguia acreditar que estavam dizendo e fazendo aquelas coisas pelo meu bem, achava que pessoas só ajudavam quando ganhavam algo em troca”, explica.

       Na semana do seu aniversário de 22 anos, decidiu comemorar com antecedência. Como trabalhava com um carrinho de lanches, não quis deixar de trabalhar no sábado, dia de alto movimento. Por isso, decidiu com sua namorada da época, junto aos amigos, a ir à praia na quinta-feira para comemorar. Nesse dia houve um homicídio no local. Como Reginaldo já tinha passagem pela polícia, o levaram para a delegacia. Uma testemunha o reconheceu como autor do crime. Foi indiciado e ficou dois anos em reclusão na Penitenciária de São Pedro de Alcântara.

       Em 2010 foi absolvido e o verdadeiro assassino foi condenado a 19 anos de prisão. O mistério da confusão se desfez, pois o culpado tinha sido um parente dele. Todavia, durante esses 24 meses que Reginaldo ficou no presídio, reuniu histórias das pessoas que conheceu lá dentro. Com o auxílio dos agentes penitenciários, que o forneciam cadernos e canetas, foi escrevendo o livro.

        Esse livro hoje se chama ‘Vidas Quebradas: Reflexos do Crack’. Em 2011 foi encaminhado para o programa estadual ‘Cem cópias, sem custos’, que visa incentivar a produção literária e cultural. Dois anos depois do envio, a obra foi aprovada. A história é narrada por uma psicóloga que recentemente iniciou seu emprego em um presídio. Escolheu contar em terceira pessoa para que pudesse incluir diversas histórias, ao invés de um personagem único.

         “Depois de solto, meu padrasto foi uma das poucas pessoas que me estendeu a mão”, diz. Inclusive foi com seu auxilio que Reginaldo entrou em contato novamente com sua família materna. Um parente o acolheu até ele conseguir se sustentar. Mas os contatos com as mesmas pessoas, os comentários e desconfiança alheia o faziam querer sair da cidade. Finalmente se mudou para Garopaba no final de 2010, longe das drogas e do crime, onde mora até hoje com a esposa, enteada e trabalha como cobrador de ônibus.

        Voltou a estudar em seguida e conseguiu passar em primeiro lugar no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para Jornalismo na Unisul em 2011. Dessa forma entrou para a universidade com uma bolsa integral através do Programa Universidade para Todos (Prouni), que consegue manter com boas notas. “Escolhi o curso por gostar de escrever e ler. Mas futuramente quero trabalhar com a área acadêmica. Quero ser professor e passar meu conhecimento para os jovens”, ressalta.

       Sua atual luta é conseguir arrecadar fundos para conseguir mais cópias do seu livro. O programa do qual foi beneficiado inclui somente cem cópias, das quais trinta vão obrigatoriamente para escolas públicas. “Eu quero garantir esse valor para poder imprimir mais cópias, consequentemente poder vender os livros a um preço mais acessível e doar para colégios e em palestras da qual irei participar”, explica.

       O lançamento será no dia 20/11 no Centro Integrado de Cultura (CIC) em Florianópolis. O evento será aberto ao público e gratuito. Depois do lançamento, Reginaldo planeja fazer palestras em escolas. “Se eu puder alertar quem está na frente da porta (das drogas), antes de entrar, já estou satisfeito”, conclui. Para os interessados em doar algum valor para ajudar na impressão dos livros, pode acessar sua página no Kickante.

         Para acompanhar as atualizações dos seus projetos, acesse a fan page