As marcas que o câncer de mama deixa na mulher

Tatiani Borghezan, professora universitária de Jaguaruna, fala da sua luta contra o câncer de mama descoberto aos 27 anos

Caroline Rodrigues

-Entrei em desespero, e a primeira coisa que veio na minha cabeça é de que eu iria morrer muito jovem, sem poder ter a oportunidade de ter meus filhos – desabafa Tatiani.

A descoberta do câncer de Tatiani Fernandes Teixeira Borghezan, professora universitária, hoje com 29 anos, aconteceu porque a madrinha dela lutava contra um câncer de mama há mais de 20 anos. Mas, em 2015, a doença voltou com mais força, e a madrinha não resistiu. Trinta dias depois da morte, Tati, como é carinhosamente conhecida, ficou preocupada e fez o autoexame no banho, e constatou um caroço em uma das mamas. Muito preocupada,  procurou um especialista para saber do que se tratava.

Ela sempre se mostrou forte, mas quando os resultados dos exames saíram, confirmando que era realmente um câncer de mama, e que ela teria que passar por todo o processo de tratamento do câncer , seu primeiro pensamento foi de que seus cabelos iriam cair. Pensamento este, que Tati se envergonha até hoje, pois este detalhe era muito pequeno perto do que vinha pela frente.

Confira aqui as fotos do ensaio fotográfico com Tatiani e Adriana

O câncer dela era muito agressivo e, de uma semana para a outra, cresceu muito. Sua médica queria operá-la o mais rápido possível, mas Tati, na primeira semana em que foi confirmado o câncer, ficou sem reação, porque tudo estava acontecendo tão rápido. Mas com a ajuda dos seus familiares, que lhe apoiaram muito, ela tentou a cirurgia de mastectomia e colocação da prótese de silicone pelo SUS. Mas um dos problemas seria a espera na fila para essas cirurgias de alta complexidade, que demoraria de 3 a 6 meses, e Tati não poderia esperar.

 

– A cirurgia de retirada da mama não me abalou tanto, porque eu coloquei a prótese de silicone na mesma cirurgia. No meu caso foi assim, mas em outros casos, as cirurgias reconstrutoras são feitas aos poucos –  destaca Tati.

Adriano sentiu um carocinho durante o banho. Foto: Caroline Rodrigues
Adriano sentiu um carocinho durante o banho. Foto: Caroline Rodrigues

Foi o caso da Adriana Francisco que mora em Tubarão. Ela descobriu o câncer aos 37 anos de idade. Hoje, com 40, ela está na fase final da reconstrução mamária.

Adriana sempre teve o hábito de fazer o auto-exame no banho, e um dia sentiu um carocinho no lado esquerdo do peito.

– Achei que era normal aquele carocinho que eu tinha encontrado, pois eu estava no período pré-menstrual, e é normal aparecer esses nódulos que depois desaparecem – destaca Adriana.

O suposto nódulo de Adriana não desapareceu. Ela sentia uma dor estranha perto dos seios. Então ela procurou um médico, que logo a encaminhou para fazer o ultrassom, meio mais rápido para se confirmar o câncer de mama. E a doença se confirmou.

– O câncer em menos de três meses tomou conta da minha mama toda. Meu médico disse que não teria como fazer a cirurgia já de início. Eu teria que passar primeiro por quimioterapia para diminuir o nódulo – explica ela, que passou por seis sessões de quimioterapia, e logo perdeu os cabelos.

– Começou a cair e ficou muito seco, pois com o tratamento, os fios ficam sem vida. Uma amiga tinha salão de beleza, e cortou meu cabelo bem curtinho. Eu tinha gostado muito do meu novo corte, mas depois eu tive que raspar, porque meu cabelo estava caindo em grandes mechas – lembra Adriana.

O tratamento dela foi toda pelo SUS, mas algumas dificuldades ela encontrou pelo caminho, como no caso do exame de ultrassom, que é o exame que mais demora, em torno de cinco meses para ser realizado. No caso dela, ela pôde pagar. Adriana teve que retirar toda a mama, mas não sabia e não tinha expectativa alguma, de como ia ser depois, se ela poderia ter de volta os seios.

 

Reconstrução das Mamas

Cirurgião plástico Felipe Nascimento e a paciente Adriana Francisco — Foto: Rafael de Jesus
Cirurgião plástico Felipe Nascimento e a paciente Adriana Francisco — Foto: Rafael de Jesus

Foi o cirurgião plástico Dr. Felipe Nascimento, do Hospital Nossa Senhora da Conceição em Tubarão, que proporcionou a Adriana uma nova chance de ter seu seio reconstruído. Segundo o médico, no caso dela, suas mamas foram retiradas por completo, porque o câncer era violento. As cirurgias de reconstrução em Adriana estão sendo realizadas aos poucos, ano que vem será sua última, com a colocação da auréola.

Existem alguns caso, uma porcentagem bem pequena, em que a reconstrução das mamas não podem ser feitas, como em pessoas que tem Cardiopatia grave, quando o coração perde sua funcionalidade por causa de alguma doença no órgão. Segundo o Dr. Felipe, antigamente existiam muitas linhas de tratamento para o câncer de cama, mas hoje cada paciente recebe um tratamento personalizado.

– Todo o processo de tratamento que a mulher tem em relação ao câncer da mama vai me dizer qual o melhor momento para fazer a cirurgia reconstrutora – fala Felipe.

Tubarão tornou-se o centro das cidades vizinhas, pois possui um dos melhores hospitais da região de alta complexidade, o Hospital Nossa Senhora da Conceição, que realiza as cirurgias de reconstrução das mamas pelo SUS. Segundo o Dr. Felipe, o câncer de mama, na região Sul do Brasil tem uma grande incidência e semanalmente as cirurgias reconstrutoras são feitas. Mas a fila sempre aumenta, pois nem sempre o tratamento inicial do câncer se dá pela cirurgia.

– Hoje em dia existem mais de 1,2 mil mulheres aguardando na fila do SUS para a reconstrução das mamas –  destaca Felipe.

 

 

Amizades que nascem através da doença

Adriana e Tatiani não se conheciam, mesmo morando perto uma da outra. Foi através do ensaio fotográfico que as duas puderam trocar suas experiências da luta contra o câncer de mama. Confira abaixo o making off do ensaio fotográfico realizado por Iuri Castelo com essas duas mulheres guerreiras, no Parque Ambiental da Tractebel, em Capivari de Baixo.

 

 

 

 

Câncer de mama no Brasil

O câncer de mama é o mais comum entre as mulheres no mundo, depois do câncer de pele não Melanoma, que corresponde a cerca de 25% de novos casos a cada ano – se apresenta com maior incidência, mas com baixa na mortalidade. Em 2015, são esperados para o Brasil 57.120 novos casos de câncer de mama, com um risco de aproximadamente 56 ocorrências a cada 100 mil mulheres, segundo dados gerados pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva – INCA.

 

 

Um autoexame pode valer a vida

  • Nem sempre se dá importância à prevenção em relação a nossa saúde. Ou porque não se tem tempo, ou por comodismo.
  • A maioria dos diagnósticos do câncer de mama ocorre em mulheres de risco normal, que não tiveram casos de câncer na família, representando 80% do primeiro caso de câncer na família.
  • No Brasil a descoberta do câncer de mama em estágio inicial corresponde apenas 5%,  já nos casos avançados o percentual aumenta pra 40%.
  • Um dos principais motivos para esse aumento é que cerca de 20% das mulheres, que estão na faixa de risco e que precisam realizar os exames de prevenção, não os fazem corretamente, ou deixam de fazer todos os anos, como é recomendado.
  • Apenas 6% deste grupo realizam os exames de mamografia com periodicidade.
  • Saber que o câncer de mama existe não protege ninguém dele, e o melhor caminho é a prevenção. Valorize sua vida, faça o autoexame nas mamas.