As pedras no caminho de quem está aprendendo a dirigir

Carolina Machado

Tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e começar a dirigir é sonho de praticamente 11 a cada 10 jovens. É quase um ritual de passagem quando você atinge a maioridade. Para muitas pessoas o melhor presente de aniversário de 18 anos é a sonhada carteira de motorista, e se a condição financeira da família permitir, um carro. Dados de 2014 do Sindipeças (Sindicato Nacional de Componentes para Veículos Automotores) mostram que a frota de veículos circulante no país já ultrapassava 41 milhões de automóveis (carros, motos, comerciais leves, caminhões e ônibus) naquele ano. Ou seja, um automóvel a cada 5 pessoas. O estudo mostrou ainda um aumento de 5,7% se comparado ao ano anterior.

Estar motorizado é mais uma das coisas que a maioria dos brasileiros considera indispensável. Para mim, porém, nunca foi assim. Até entrei para autoescola com 18 anos, mas a falta de interesse somada com a falta de tempo me fez abandonar e voltar três anos depois. O tempo livre continua em falta (faculdade + dois empregos), o fator determinante agora foi a necessidade da habilitação para o mercado de trabalho e para a tão sonhada mudança para o exterior. Prioridades.

Agora, com 21 anos, foi hora de recomeçar o processo do zero. Um teste com a psicóloga, mais conhecido como “psicotécnico”, um teste médico – para verificar, resumidamente, se você necessita de óculos para dirigir – 11 aulas teóricas de 3 horas e meia cada, e mais 25 aulas de direção de 50 minutos cada. Separe pelo menos dois meses para fazer as aulas, ser aprovado nas provas e estar com a Permissão para Dirigir em mãos (A CNH mesmo só vem um ano depois de estar com a provisória, isso se não receber duas multas leves ou uma média, grave ou gravíssima).

Em países como os Estados Unidos o método é diferente. Primeiro, quase não existem mais carros manuais. A maioria é automático, e na própria autoescola americana você irá realizar o teste e as aulas – você pode pagar e fazer na autoescola, ou os próprios pais podem ser os supervisores das aulas – em carro automático. Lá o processo se resumo a uma prova escrita de 20 perguntas e uma volta pelo bairro para ver se o adolescente está apto a dirigir. Segundo, você já pode tirar a habilitação a partir dos 16 anos. E terceiro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou em 2013 uma pesquisa que aponta o Brasil como 3º trânsito mais mortal da América, atrás apenas de República Dominicana e Belize. Ou seja, a frente dos EUA.

Mesmo com um método melhor de ensino e mais justo (aulas teóricas e de direção obrigatórias na autoescola), o número de acidentes ainda é maior em nosso país. Soma-se a falta de cobrança das leis brasileiras com a falta de ética dos brasileiros e talvez possamos entender o problema. Direção defensiva é o ato de tentar evitar acidentes em condições adversas e é um dos assuntos mais discutidos durante as aulas teóricas. Veja bem, a maior condição adversa no Brasil é justamente… o brasileiro.

Falta de uso de cinto de segurança, menores de 10 anos no banco da frente, dirigir alcoolizado ou mexendo no celular, não dar seta, ultrapassar em faixa contínua, trafegar acima do limite de velocidade permitido… São tantas e tantas infrações e adversidades que podem ser facilmente evitadas causadas exclusivamente por motoristas. Se é ensinado o certo, por que é feito o errado?

Seguimos por aquele caminho da falta de ética e noção, que atrapalha quem está aprendendo ou fazendo o certo. Na vida sempre temos segundas, terceiras, quarta chances. Agindo com tanta imprudência no trânsito, dificilmente teremos mais de uma.