Bifobia

Existe uma certa invisibilidade quanto aos bissexuais e ela se tornou mais evidente a partir do momento em que a homossexualidade ganhou mais representatividade na cultura midiática. Presuma-se que um bissexual é uma pessoa dividida/agregadora tanto de heterossexualidade quanto da homossexualidade. Errado. A bissexualidade é, por si só, bissexualidade. A tentativa de enquadrar bissexualidade nesse conceito já mais acessível aos olhos (homossexualidade) é uma demonstração da monossexualidade (pessoa que é sexualmente atraído a um sexo, ou gênero, apenas) compulsória que forma a nossa sociedade, onde precisa-se sentir atração por apenas um gênero.

A inexistência dessa orientação e a sua comparação com moda passageira ou com uma própria indecisão sexual por parte da pessoa se dá a invisibilidade que os bissexuais sofrem. É muito difícil se assumir algo que não existe, e tornar isso palpável e convincente para as pessoas ao seu redor (principalmente familiares). A bissexualidade é inexistente para filmes, literatura, música, etc. Um exemplo disso é o filme Com Amor, Simon (2018). No filme, um rapaz aparece beijando uma menina em uma festa, e no final do filme assuma-se gay, justificando seu beijo com a menina como um momento de loucura pois estava bêbado. É simplesmente desinteressante para o filme a possibilidade de um personagem bissexual, já que não tem o mesmo efeito dramático que um personagem homo (além da maioria dos espectadores médios não saberem o que é bissexualidade ou não levarem a sério).


Twentieth Century Fox’s “Love, Simon”

A maioria dos bissexuais não se assumem, como Thayná Duarte, mulher de vinte e um anos que cursa design de moda em São Paulo, que nunca se assumiu publicamente bissexual. “Por um bom tempo achei que era lésbica, mas eu nunca entendia o porquê eu ainda me sentia atraída por homens. Quando eu tinha 18 anos, foi o meu ápice de dúvida sobre tudo, principalmente minha orientação sexual. Conversando com minha melhor amiga e pesquisando sobre, me descobri bissexual. Ainda sinto que estou no processo de me abrir sobre isso. Minha família ainda não sabe e só agora alguns amigos estão descobrindo sobre isso”.

Essa invisibilidade se dá também em como a mídia num geral não cita a bissexualidade de certos artistas e prefere chamá-los de homossexuais do que de bissexuais. Exemplos de artistas bissexuais: Janis Joplin; Frida Kahlo; Billie Joe (Green Day); Angelina Jolie; Amy Winehouse; Marlon Brando; Iggy Pop; Lady Gaga; Cazuza; Lou Reed; Freddie Mercury; Renato Russo e David Bowie. Provavelmente existem diversos outros que nunca se abriram, como Mick Jagger, que nunca se pronunciou sobre publicamente, mas teve relações sexuais com David Bowie. Existem pouquíssimos artistas se assumindo publicamente e menos ainda produzindo conteúdo bissexual.


Lou Reed, Mick Jagger, David Bowie, Cafe Royale, London 1973 by Mick Rock

A importância dessa visibilidade cultural de pessoas bissexuais é extrema, segundo Zoe Masan, transgênero não-binário (identidade de gênero que não é integral e exclusivamente homem ou mulher, estando portanto fora do binário de gênero e da cisnormatividade) bissexual de vinte anos que cursa jornalismo em São Paulo, “Billie Joe Armstrong deu uma entrevista falando que era bissexual, daí eu fui ler, fazer uma pesquisa sobre, e mesmo antes de saber o que era, quando eu li aquele termo eu tive um clique, parecia que tudo se encaixava dentro de mim”.

Uma das coisas que torna a bissexualidade tão socialmente frágil, é que ela sofre preconceitos de todos os lados. O bissexual acaba sofrendo menos preconceito com a norma heterossexual do que os homossexuais porque ele é “apenas 50% gay”, mas quando em um relacionamento homo, ele sofre igual. E sofre também da sociedade homossexual, já que muitos veem a bissexualidade como um medo de se assumir homossexual e ficar exposto ao mundo homofóbico, ou como mera indecisão.

“Acredito que isso se dá a partir de um pensamento de sociedade como um todo que força as pessoas a se encaixarem em apenas um estereótipo, de forma que a bissexualidade seja algo que quebre essa binariedade. Ser capaz de sentir atração genuína por todos os gêneros é algo inconcebível nesse padrão vigente, porque todos teríamos que escolher um deles uma hora ou outra”, disse Maras, bissexual transgênero não-binária de Ouro Preto, que cursa Pedagogia. Completando essa linha de raciocínio, a Nick Freitas disse em seu texto (In)visibilidade Bi e Algumas Coisas que Vocês Estão Precisando Aprender Sobre Nós, “bissexuais são 0% héteros, 0% lésbicas e 0% gays, somos 100% bissexuais mesmo. E, por isso, o tempo inteiro estamos sujeitos a sofrer LGBTfobia, assim como as outras letras da sigla”.

“O bissexual sofre muito mais bifobia vindo da comunidade LGBT”, diz Zoe. A bifobia pode se dar tanto pela invisibilidade quanto pelos familiares heterossexuais e pela comunidade LGBT (que deveria apoiar a causa). Segundo Maras, “é um tipo de preconceito que também se relaciona com o fato que automaticamente se rejeita relacionamentos não-monogâmicos e os trata como se fosse apenas uma “fase de transição” ou que não são de verdade, por exemplo. E isso tudo é enraizado na sociedade num geral, a comunidade LGBT não se eximindo disso”. Thayná concorda, diz que “bissexuais sofrem bifobia na sociedade hétero e na comunidade LGBT pelo simples fato de que, esses dois lados são predominantemente monossexuais. É algo que para algumas pessoas, infelizmente, não entra na cabeça de que podemos sim nos sentir atraídos por mais de um gênero”.

Também existe pouco material cientifico e de pesquisa sobre bissexualidade. Os poucos que existem são mais construídos através de ideologias e ideias de representatividade (em sites mais pessoais como Medium) do que estudo mais social ou científico mesmo. Isso é uma resposta natural quanto a invisibilidade dessa sexualidade e dessas pessoas. Maras acredita que uma solução para isso seria visibilidade midiática (em filmes, músicas, séries, etc.). “É algo indispensável para tornar o conceito de bissexualidade algo mais natural e concreto no imaginário popular do que apenas uma “fase de transição” como é visto por muitos ainda”. Já Zoe acha que a luta tem que vir por parte dos bissexuais também, que eles têm que tomar a sua voz, “um dos jeitos dos bissexuais se afirmarem seria abraçar os estereótipos que lhes é dado e ressignificá-los”.

Texto: William Andrades