Dar voz às mulheres: iniciativas na música independente brasileira

(Foto de capa: Hannah Carvalho)

Quantas bandas independentes brasileiras com mulheres na formação você conhece? Duas ou três? Nenhuma? Um mapeamento feito pelas produtoras Letícia Tomás e Hannah Carvalho, criadoras do selo musical PWR Records, acompanhadas da Nanda Loureiro, dona do selo cearense Banana Records, juntou ao todo 394 projetos com nomes femininos na sua composição.

A lista colaborativa, que engloba os mais variados gêneros, começou a ser feita em junho de 2016. Nela você encontra o nome do grupo, a cidade e estado de origem, o tipo de som que cada banda produz, links para as músicas e um email de contato. “Girls Bands BR” está disponível online para quem checar ou ajudar com mais uma indicação.

We Are Not With The Band (nós não estamos com a banda) é um projeto multimídia, que possui, de certa forma, o mesmo conceito: mostrar que existem sim mulheres fazendo música.  Quem faz parte da iniciativa é a Daniele Rodrigues e a Filipa Aurélio juntamente com Clara do Prado, responsável pela identidade visual. No site é possível encontrar entrevistas extensas, fotografias e vídeos com musicistas de várias partes do país. O nome, segundo elas, é pra mostrar que as mulheres não estão com a banda, elas são a banda. Desmistificando “a ideia que as mulheres apenas são as namoradas, acompanhantes, fãs/groupies dos elementos de uma qualquer banda”.

 

Discos poderosos

 

Atualmente, muito se fala sobre a importância do espaço das mulheres em qualquer área, sobre igualdade e inclusão em todos os campos, mas poucas vezes este discurso corresponde à realidade. Foi a partir dessa premissa que a Letícia Tomás e Hannah Carvalho, ambas com 21 anos, criaram o selo PWR records.

As garotas se viram limitadas por diversos fatores no cenário musical, principalmente por se sentirem sozinhas trabalhando com produção cultural em Recife e rodeada por caras. “Eu literalmente virei pra Hannah um dia antes de sair de casa “oh, vamos fazer um selo? O nome pode ser PWR” e só com isso ela entendeu toda a vibe e o conceito”, conta Letícia. Além das duas fundadoras, o selo conta com a correspondente paulistana Bells Delfiol, que integrou o time em 2017

Fruto de um devaneio, a PWR Records é um selo sobre representatividade e somente lança, produz e assessora bandas com no mínimo uma mulher em sua formação. “Apesar de ter muita mulher fazendo trampo foda, acho que muitas vezes o espaço não condiz ao tamanho de iniciativas maravilhosas, é pra isso que estamos aqui né? Pra abrir esse espaço!”, comenta a produtora.  Além disso, o selo também promove ações com foco no empoderamento feminino e a auto-estima por meio da música, como o Jam das Minhas. Um evento esporádico com convidadas que interagem com o público e incentivam a participação de qualquer garota na apresentação.

No começo, conta Letícia, houve um pouco de medo de ninguém confiar no trabalho que estavam fazendo. Por isso, o primeiro lançamento foi uns dos mais marcantes. PAPISA é um projeto solo da cantora e multi-instrumentalista Rita Oliva, inspirado no arcano 2 do tarô. “A Rita já era musicista há muito tempo, tinha experiências em outras gravadoras e trouxe isso pra gente, confiou no nosso trabalho e nos ajudou a crescer muito”, explica. Até o momento, o selo tem um catálogo com 13 lançamentos, bem como participações em diversos festivais independentes.

Fundada por mulheres e para mulheres, a PWR Records é uma dessas iniciativas que vêm abrindo espaço no cenário musical brasileiro. “Estamos reinventando todo um sistema que sempre nos excluiu, isso me deixa imensamente feliz, mas não satisfeita. Enquanto selo acho que ainda falta nós brigarmos mais pela causa, estamos nos organizamos para estar cada vez mais presente.” completa Letícia.


Texto: Juliana Bittencourt Inês