Depressão e ansiedade: os males da juventude

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é o mal do século e o principal problema de saúde entre os adolescentes e jovens, fato diretamente ligado ao suicídio, que está entre as três maiores causas de morte na faixa etária de dez a 19 anos. De acordo com um estudo americano (Los Angeles Epidemiologic Catchment Area Project), 25% dos adultos com depressão relatam o primeiro episódio da doença antes dos 18 anos.

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), relatam que 9,3% de brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população. Alguns dados mostram que atualmente 33% da população mundial sofre de ansiedade.

Mas o que pode desencadear essas doenças em pessoas tão jovens? O psiquiatra Wagner Corrêa, diz que o stress no trabalho e na escola são uma das principais causas. Já a psicóloga Izabel Villa diz que “no meio jovem é muito comum que esses transtornos apareçam por conta da falta de identidade gerada muitas vezes por baixa estima e falta de atenção dos pais desde a infância, relacionamentos familiares conturbados, excesso de atividades tanto na escola ou faculdade como fora e o uso excessivo de tecnologias.”.

A psicóloga Izabel, que atua nos municípios de Tubarão e Laguna, relata que atende desde crianças até idosos. “Dos meus pacientes uma média de 30% são adolescentes e jovens, sendo que todos têm muitas dificuldades de lidar com as emoções, sempre trazendo relatos de ansiedade e deprimidos na sua maioria”. O psiquiatra Wagner diz que de todos os seus pacientes, 20% são adolescentes e jovens com algum sintoma de uma das doenças e que a maioria dos jovens que o procuram são realmente diagnosticados.

A depressão é uma doença que afeta o humor, gerando tristeza persistente que ultrapassa 15 dias, perda de interesse por atividades que gostava e cansaço são sintomas bem comuns. A ansiedade é uma emoção normal do ser humano, mas a ansiedade excessiva pode se tornar um distúrbio, como a preocupação excessiva e medos ao ponto de interferir nas atividades do dia a dia, mais alguns sintomas físicos como dores no peito, boca seca, mãos ou pés suados, falta de ar e dores de barriga são sinais da ansiedade.

O que os pais devem fazer para evitar que seus filhos desenvolvam problemas psicológicos? A psicóloga Izabel explica muito bem e diz: “Os pais são os guardiões dos filhos, eles devem procurar diariamente manter diálogo e além da postura de autoridade os pais devem ser ajudadores na construção das emoções saudáveis nos filhos. Quando o filho já se encontra em algum estágio de ansiedade ou depressão devem procurar ajuda psicológica profissional imediata, porque a ansiedade pode evoluir para uma depressão caso não seja tratada e a depressão de um grau leve pode evoluir para grave caso não receba acompanhamento. Reforçar a importância de ter uma vida espiritual ativa, cuidar da alimentação, ter uma rotina com atividades físicas e limites no uso de tecnologia também deve ser uma prioridade que os pais devem ter nos cuidados com os filhos”.

 

“Foi a pior fase da minha vida” – Bruna Xavier, 18 anos:

Bruna Xavier, 18, começou a apresentar sinais de depressão com 15 anos, ela diz que a doença se desencadeou em momentos diferentes na vida dela. “Foi a pior fase da minha vida, com a ausência do meu pai desde os meus 6 meses e com a falta de atenção da minha mãe, por conta que ela trabalhava em dois empregos, eu comecei a me sentir sozinha”.

A adolescente que até então entendia o fato da sua mãe trabalhar muito, para sustentar as duas, começou a ter sintomas da depressão quando sua mãe começou um novo relacionamento. “Eu fiquei bem assustada em ver uma pessoa nova entrando na família, porque até então éramos só nós duas, e o tempo vago que a minha mãe tinha era divido entre nós dois e isso começou a me deixar desconfortável, porque eu pensava ‘poxa ele chegou agora e já tem toda atenção da minha mãe, coisa que eu nunca consegui”. Bruna diz que na época não conseguia ver que a mãe dividia o tempo, pra ela, a mãe só tirava tempo para o novo padrasto.

A relação de padrasto e enteada no começo era ótima, porém depois de um tempo, Bruna diz que começou a ficar muito difícil a convivência. “Quando a minha mãe chegava com ele do serviço eu me trancava no quarto e não saia de lá até ele ir embora ou a minha mãe sair de casa também”. Isso começou a afetar toda a vida dela. “Comecei com dificuldades na escola, resultando em duas reprovações, dificilmente eu me socializava com outras pessoas e até mesmo com a minha família, que aliás me julgavam pelo meu comportamento e isso fazia com que eu me sentisse pior”.

Bruna foi buscar ajuda quando se viu em um estado extremamente crítico, em que só chorava e que começou a apresentar problemas de saúde. “Nessa época eu emagreci muito e comecei a ter pensamentos suicidas, tinha dias que eu passava o dia todo pensando como que eu poderia me matar, foi onde que eu pedi ajuda só que foi um pedido em vão, já que minha família me julgava e não acreditava que uma menina de 15 anos poderia ter depressão”.

Hoje a Bru, como gosta de ser chamada, se considera completamente curada da depressão. “Quando eu conheci Deus a minha vida mudou totalmente e com o posicionamento da minha mãe também”. Mas ela relata que junto com a depressão veio a ansiedade e que por enquanto ainda precisa lidar com essa outra doença. “Hoje eu sei lidar melhor, eu já consigo controlar muito e já faz um tempo que não tenho mais crises de ansiedade”.

 

“Eu não tinha vontade de viver” – Ana Carolina Leal, 22 anos:

Ana Carolina Leal, 22, percebeu a depressão e a ansiedade com seus 19 anos, ela diz que antes, talvez já tenham aparecidos alguns outros sinais, mas quando de fato percebeu foi nessa idade. “A minha história com a depressão é bem difícil pra eu contar, eu sempre fui uma pessoa muito alegre, extrovertida, nunca imaginei que isso ia acontecer comigo”.

No auge de seus 16 anos, Ana perde seu irmão de três anos de idade vítima de ataque cardíaco. “Eu creio que foi por causa da perda do meu irmão, com várias coisas que aconteceram, talvez de eu guardar meus sentimentos, começou com a ansiedade, eu me tornei uma pessoa muito ansiosa, seguindo de crise de pânico, por ter medo de tudo”. Por causa do medo, ela começou a se isolar de tudo e diz que foi daí que surgiu a depressão. “Eu queria ficar sozinha no meu quarto, eu não queria ver ninguém, eu não queria sair daquela situação, muitas vezes eu queria morrer e foi bem difícil porque as pessoas não acreditavam que uma garota da minha idade podia estar passando por isso”.

Ana começou a se ver em um estado crítico em que se considerava uma pessoa morta viva, não achava forças para fazer nada. “Eu não tinha vontade de viver, eu só queria ficar na cama dormindo, eu tinha medo de ir pra faculdade, tinha medo de falar com alguém novo, tinha medo de tudo, eu me isolava, ficava presa naquilo ali, só queria chorar”.

Com inúmeros pensamentos pessimistas, a sua situação foi se agravando, Ana começou a apresentar manchas roxas por todo o corpo e tudo o que comia acabava vomitando. “Eu emagreci 8kg em um mês, eu já não comia muito e o pouquíssimo que eu comia eu vomitava”. A doença deixou de afetar somente o psicológico da jovem e começou a afetar o corpo físico. Foi nesse momento em que Ana se viu obrigada a procurar um profissional.

Os pais de Ana não entendiam o que estava acontecendo com a filha. “No começo eles achavam que era preguiça, que era teatro, mas depois que começaram a apresentar os sinais no meu corpo físico, minha mãe principalmente ficou muito preocupada e foi quando ela me ajudou de verdade, me levando a um profissional e me ajudando a sair da onde eu estava. Mas no começo foi bem difícil, principalmente meu pai, ele dizia que eu tinha que sair daquilo que era só por mim”, ela conta.

Hoje, Ana não se considera 100% curada, ela diz que aprendeu a lidar com a doença. “Todo dia é um obstáculo diferente que tu tens que aprender a vencer, se não tiver cuidado você acaba caindo de novo naquilo, eu tomo muito cuidado pra não estar triste, não deixar o medo tomar conta de mim, então eu aprendi a lidar com a doença, com o que mais me fazia mal e assim a gente vai seguindo”.

 

Texto: Lare Figueiredo