Entre a pressão e a preparação: dos vestibulares à escolha da profissão

Cursos preparatórios, simulados e orientação são propostas das escolas para auxiliar nas decisões

 

Pesquisa, testes vocacionais e conversa com os amigos. A escolha do curso a se seguir nunca foi fácil. A perspectiva de decidir todo seu futuro com uma única escolha traz incertezas e inseguranças. A pesquisa “Estudos sobre a Evasão no Ensino Superior brasileiro”, realizada pelo Instituto Lobo, traz números alarmantes: cerca de 21% dos alunos que ingressam na faculdade desistem do curso, equivalente a 900 mil pessoas, e entre muitos motivos estão a falta de conhecimento sobre o curso e desilusões com a escolha.

Apesar da idade de ingresso no ensino superior no Brasil ser bem variado, a maior parte de novos alunos é constituídas de jovens recém formados no ensino médio.

Uma recente pesquisa realizada pela consultoria Educa Insigths, encomendada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), entrevistou 1,2 mil pessoas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, avaliando o que os pais e alunos esperam depois do ensino médio.

Nas respostas dadas pelos alunos, a justificativa mais constante para cursar o ensino superior, apontado por 66% dos entrevistados, é “conseguir um bom emprego no futuro”. Na sequência aparece, com 31%, a resposta “porque é importante para mim”, seguida de “porque é exigido pelo mercado de trabalho”, com 28%, e “porque sempre sonhei com isso”, com 20%. 3% das respostas constituem “porque é sonho dos meus pais”. 98% dos pais, com uma opinião quase unânime, responderam que é importante para eles que seus filhos entrem na faculdade após concluir o ensino médio.

Débora Magalhães De Brida, estudante do 3º ano do ensino médio, conta que a maior parte da pressão para a escolha partia dela mesmo. “A escolha foi bem difícil, desde pequena eu sonhava em fazer moda. Conforme fui crescendo conversei com outras pessoas da área, acabei trocando várias vezes. Já pensei em direito, arquitetura, odontologia, engenharia civil, e agora me decidi em engenharia química. Meus pais sempre me apoiaram bastante, independente da minha escolha. Mas senti uma maior pressão de mim mesma na troca do segundo para o terceiro ano, porque tinha que decidir se era isso mesmo que eu iria querer”, conta a estudante.

“Eu busco algumas coisas por fora também, mas em relação à escola todo mundo conversa bastante, os professores nos orientam sobre os cursos e oportunidades. Alguns até falam ‘olha, tu se encaixaria bem nessa profissão aqui’. A gente conversa bastante a respeito”, explica Débora.

Débora estuda na Escola Estadual Barão do Rio Branco, que busca nas parcerias com as universidades, como a Unesc e a Unibave, possibilidades para os alunos conhecerem novas oportunidades com orientação profissional e palestras sobre profissões.

Para Simone Nogueira Feltrin, gestora da Escola Barão do Rio Branco, a orientação aos alunos deve ser feita desde o 1º ano do Ensino Médio. “Desde o começo já começamos a tratar questões mais específicas com os alunos, por exemplo: que profissão quer seguir, o que é o vestibular, o que é o Enem, o que é Prouni, como conseguir bolsas. Muitas vezes os estudantes não vão para uma universidade por não conhecer as oportunidades ou por não ter se encontrado ainda, ou não saber a profissão que quer seguir”, ressalta Simone.

A escola ainda realiza cursos preparatórios nos finais de semana, simulados e acompanham os alunos inscritos no Enem para realizarem a prova

O ensino integral

Caetano Bez Batti é uma das poucas escolas públicas de Santa Catarina que aderiram ao Ensino Médio Integral, onde os professores utilizam metodologias de ensino diferenciadas, usando o pensamento crítico, a criatividade, a colaboração e também o autoconhecimento, com objetivo de desenvolver a autonomia dos jovens e prepará-los para a escolha da profissão.

Essa mudança trouxe bons resultados na aprendizagem: segundo a Instituto Ayrton Senna, responsável pelo desenvolvimento da metodologia, os estudantes que estiveram em escolas com a proposta, em 2017, apresentaram, em média, um desempenho 12,3% superior ao da média da rede estadual em Língua Portuguesa e 9,4% em Matemática, além de terem uma taxa de aprovação 18% superior nas duas disciplinas, em comparação com escolas que não tiveram a proposta, de acordo com o monitoramento de dados realizado pelas equipes.

Um dos componentes da proposta é chamado de Projeto de Vida, onde os jovens têm a oportunidade de pensar, planejar e começar a construir sua trajetória pessoal, com o apoio dos professores e da família.
Alexsander Perito, professor de história, explica que a principal função no Projeto de Vida envolve o desenvolvimento de autoconhecimento por parte dos alunos. “Todos os alunos usam o mesmo caderno para o projeto de vida, durante três anos, com a função de diário. Os alunos têm a liberdade de escolher o professor-orientador para o desenvolvimento do projeto, optando por grau de afinidade. Começa simples, com a pergunta ‘qual a origem de seu nome?’, e vai se aprofundando com o passar do tempo. Sendo uma preparação para o mercado de trabalho”, esclarece.

Carlos Eduardo Rodrigues, de 16 anos, é aluno do 2º ano do ensino médio integral, e sonha em cursar letras. Ele conta que a preparação para as provas decisivas já estão iniciando. “A maioria das provas são questões de vestibular e lemos muitos livros. O Projeto de Vida tem dado bastante auxílio com a escolha da profissão, porque conversamos e debatemos com os outros colegas e professores”, conta Carlos.
Outra prática desse método de ensino é o Projeto de Pesquisa, que incita e inicia os alunos às pesquisas científicas, preparando-os para estudos acadêmicos. “Os alunos saiam do ensino médio para as universidades sem noção nenhuma envolvendo projetos de pesquisa. No método que usamos, o 1º ano realiza pesquisas simples, sobre a comunidade da escola, por exemplo, e com o passar dos anos ela vai sendo aprofundada, ensinando a realizar citações e desenvolver projetos”, considera Marcio Lucas da Cruz, professor de Educação Física.

Apoio psicológico

O apoio dos pais e da escola é de extrema importância na hora da escolha, mas deve haver um cuidado para não gerar influência direta. Segundo Alex Cambruzzi, psicólogo especialista em psicologia educacional, a pressão exercida contra os jovens pode antecipar e até mesmo confundir a capacidade de discernimento pelo curso. “Ao longo do desenvolvimento humano somos bombardeados por informações e influências pessoais de nossos entes. O momento da escolha requer tranquilidade e assertividade. São inúmeras as variáveis a serem consideradas. O jovem costuma fazer seu autoprocessamento muito antes da escolha”, exalta.

Alex ainda explica que maneira certa para realizar o apoio para os jovens é colocarem-se a disposição para promover visitas às universidades, palestras e principalmente não confundirem o que são suas expectativas com as do jovem. Tendo o papel de informar e não influenciar, pois quando exigem que o jovem siga determinada carreira acabam transferindo para ele conclusões que são pautadas em vivências pessoais. “Existe uma ‘contaminação’: queremos na maioria das vezes que ele não sofra aquilo que sofremos. Contudo, quem nos garante que assim será? Por isso o papel do psicólogo nesta etapa é de grande importância, já que o mesmo irá traçar orientações baseadas no perfil psicológico, nas habilidades e nos anseios que o jovem manifesta naquele momento”, explica.

Dicas para uma boa prova

Segundo Alex uma noite de sono adequada pode ser decisiva para bons resultados nas provas de vestibulares e Enem. “Não adianta tentar recuperar conteúdo na madrugada que antecede a prova. Cérebro descansado lembra mais, tem maior capacidade de se concentrar. Durante a prova, se a ansiedade se elevar, faça uma pausa e observe sua respiração. Ela deve ser estimulada a ficar mais lenta e longa. Outra estratégia para baixar a ansiedade é observar os objetos da sala e ir descrevendo-os. Não é necessário grande tempo com essas estratégias. A pessoa perceberá que rapidamente o corpo relaxará e conseguirá voltar à prova”, explica.

 

Texto: Isabella De Brida