Especial: Rio Tubarão,  da serra ao mar

O gigante e imponente Rio Tubarão nasce na conhecida Serra do 12 e desemboca na Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em Laguna. Nesse percurso, histórias se acumulam e fazem o rio ser ainda mais espetacular.

O cheiro do verde, o barulho da água corrente ao longo do trajeto e o sol tentando disfarçar o frio da serra. Um pouco de neblina ao amanhecer, esconde as montanhas e o caminho. Seguimos em direção ao interior de Lauro Muller, mas precisamente na comunidade de Rocinha, ao encontro da nascente do Rio Tubarão.

Lauro Muller é conhecida como a cidade do carvão, por conta da grande exploração do mineral, que mais tarde foi a responsável pela contaminação do Rio Tubarão. A cidade tem uma natureza muito rica, com uma fauna e flora abrangente. Cachoeiras, rios, vales e montanhas, um clima aconchegante e característico de cada estação, são atrações turísticas assim como a Serra do Rio do Rastro e os Cânions na Serra Geral que liga Santa Catarina ao Rio Grande do Sul.

O rio nasce na encosta da Serra Geral, mas a quem diga que a nascente do rio fica na encosta da Serra do Rio do Rastro. Em meio a dúvidas e entre as duas, estávamos no coração das Serras. Cercados por uma vegetação valiosa ao aconchego do interior em harmonia com a natureza, fomos muito bem recepcionados. Junto ao Rio Tubarão, existem mais dois rios que nascem no mesmo lugar, talvez por isso existam tantas teorias sobre a verdadeira nascente do mesmo. Logo após apreciar a gastronomia local, seguimos até a localidade de Rocinha.

As estradas que levam até a nascente do rio são precárias, pouco povoadas e sem nenhuma sinalização. Os únicos pontos de referencias são agricultores locais que vamos encontrando ao longo do caminho. Algumas horas de estrada de chão, chegamos a um ponto do rio que só pode ser percorrido a pé. Uma oportunidade incrível de apreciar aquele lugar, que pouco lembra uma das bacias mais poluídas do Brasil.

A água que brota da nascente é límpida e cristalina, podendo ser consumida sem nenhum tipo de tratamento. Apesar de que alguns quilômetros adiante aquela água seja contaminada, ali onde nasce é pura e faz crer o quanto é inestimável a beleza de nosso estado, e o quão impagável é aquela nascente.

Na nascente o rio tem águas cristalinas , o contrário do que ocorre nos centros urbanos
Mitos e verdades do Tubanharô

O rio leva esse nome devido a uma variação do nome Tubá-nharô, antiga tribo de índios da região. Significa “Pai-Feroz”.

Mas não é o que diz Da. Zeli Silva, 78 anos, moradora do bairro Madre a mais de 50 anos. Segundo ela conta, o rio tem esse nome pelo “simples” fato de um tubarão (peixe) ter entrado nas águas da barra em tempos que ela não sabe datar, mas que os avôs dela já contavam essa história.

Ela ainda dá detalhes da versão: “Minha avó dizia que contavam pra ela que foi uma ‘correria’, não sabiam nem o que fazer. Tinha pescadores pescando na hora. As águas eram rasas e o ‘bicho’ ia morrer”.

Quando questionada sobre o fim dessa história, ela diz não lembrar. Mas sua vaga memória arrisca em dizer que o tubarão morreu e foi puxado por cordas pelas embarcações pesqueiras.

Outra versão bastante curiosa e um tanto bizarra, é a de Rosalba Souza, 43 anos, moradora do bairro centro. Ela conta que o rio tem esse nome por se parecer um peixe olhando de cima — o que não é verdade, e por sua extensão levou esse nome.

A historia foi contada a ela também pelos avôs, mas ela mesmo desmente o mito: “Impossível ser está a origem do nome do rio. Antigamente qualquer historia era aceira, mas hoje é nítido que o rio não tem formato de peixe”. — risos.

A fúria do gigante

24 de março de 1974 vai ficar na memória de muitos tubaronenses. Mas não como uma lembrança boa. Nesta data aconteceu a maior catástrofe natural da história do município. Foram dez dias de chuva incessante, que resultou no inevitável. Os números mais apurados mostram que aquela catástrofe deixou milhares de desabrigados e 199 mortos. Mas esse dado é contestado há bastante tempo por Dr. Irmoto Feuerschuette, prefeito de Tubarão na época da enchente.

A área central de Tubarão ficou inundada, alguns antigos dizem que a água chegou a mais de dois metros, dentro de casa

– O número de mortos é bem inferior, porque nessa estimativa está computadorizado os falecidos do Rio Mampituba e outras mortes que aconteceram no Rio Grande do Sul. 19 óbitos ocorreram no município de Piratuba, na época distrito de Torres. Os 199 mortos são todos de Santa Catarina. No vale do Rio Tubarão não passa de 80 mortos.

Dr. Irmoto Feuerschuette na época precisou tomar decisões difíceis. Em uma delas, pediu que o Exército abrisse a Barra do Camacho com explosivos, para que a água tivesse mais vazão.

“No domingo à tarde, o Major do Exército me perguntou o que faríamos e eu tomei a decisão de abrir a Barra do Camacho. Fomos de helicóptero, eu e mais um tenente. Dinamitamos a estrada, que estava funcionando como barragem e partir daí começou a infiltrar água e a barra abriu aproximadamente 200 metros na madrugada daquele dia”.

Prevenção a uma nova catástrofe

Durante todo o mês de março acontece uma reunião com líderes das forças de segurança para acompanhar e sugerir ações no processo de recuperação da calha do Rio. Quem geralmente acompanha essas reuniões é a atual secretária de Defesa Civil de Tubarão, Elna Fátima:

– Do grupo surgiu à orientação para que a redragagem estenda-se não somente até a Foz do Rio Tubarão na Lagoa de Santo Antonio, mas que aprofunde o canal até a saída no oceano, ou seja até a ponta dos Molhes em Laguna.

Este mesmo grupo entende que além da redragagem, outras medidas de controle sejam necessárias. No entanto é preciso aprofundar os estudos na Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar.

Atualmente o Projeto da redragagem já está pronto, e o licenciamento ambiental da obra está em processo de análise pelo órgão ambiental. Após está etapa os entes públicos deverão viabilizar economicamente a obra para ser executada.

Nas últimas cheias, em 2010, a praia do Mar Grosso, em Laguna, recebeu toneladas de sujeira, trazida pela correnteza do rio

Percurso alterado

Até algumas décadas antes da enchente de 1974, o leito do Rio Tubarão era o atual leito do Rio Seco, conhecido por Rio da Madre. Por onde passa atualmente o Rio Tubarão, existia o Rio Tubarão das Conchas, que era menor que o Rio Seco. Após as valas de drenagem de Capivari de Baixo e Estiva, que escoavam para o Rio das Conchas no final do século XIX, se avolumar por causa das inundações, estes canais e Rio foram ficando maiores. Desta forma o escoamento principal do Rio Tubarão teve prioridade e o antigo leito foi perdendo vazão.

Com a enchente de 1974, o extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento — DNOS, fez um projeto cujo objetivo era o de minimizar o efeito das inundações. A proposta contemplava a retinilização, aprofundamento e alargamento da calha do Rio, bem como a construção de quatro barragens. Mas a secretária de Defesa Civil de Tubarão, Elna Fatima, explica que o projeto foi executado parcialmente.

– Foi feito o aprofundamento do fundo do Rio a partir da Ponte Orlando Francalacci, próximo ao quartel, saindo de um fundo com 1 metro abaixo do nível do mar e chegando à desembocadura junto a Lagoa de Santo Antonio com 8 metros de profundidade e largura de mais de 100 metros. Esta obra foi começou em 1978 e terminou em 1982, deixando Rio com vazão aproximada de 2.000 m³/s, e além da intervenção do leito do Rio, também foram feitos diques marginais a partir da ponte férrea.

Após essas obras, o Rio Seco teve a vazão comprometida de vez, já que o fundo do leito ficou acima do nível natural da água do Rio Tubarão. Segundo a secretária, a solução foi instalar bombas para manter uma vazão mínima.

Lembro que a vazão calculada em março de 1974 foi de 3.900 m³/s, quando choveu naquele mês em torno de 700 mm na Bacia Hidrográfica, assim deduz-se que mesmo com esta obra, uma nova inundação não será evitada, entretanto em diferente dimensão.

Com o percurso alterado, com menos curvas, a chance de represar a água diminuiu, evitando assim as cheias

Fauna e flora

Fauna e Flora são umas das coisas mais importantes que o Rio Tubarão precisa, um sem o outro não existe. No longo do percurso de 120 km de mata ciliar que existe entorno do rio que serve também para a manutenção da qualidade da água, para a proteção da biodiversidade e também para o controle da erosão.

Um dos papéis tão importantes é de cuidado para não ocorrer deslizamento de terra, ou ocorrer outra enchente como a de 74 fazendo assim o seu papel importante de cultivar e se desenvolver para que essa tragédia não volte a ocorrer. E que as proximidades corra nenhum prejuízo. Todos os tipos de plantações são encontradas no rio, desde aquáticas e terrestres. Arvoredo é encontrado por toda sua extensão, onde trazem cores para o Rio.

A fauna é encontrada em todo o percurso, desde mamíferos, répteis, anfíbios, aves, crustáceos, peixes entre outros. O que se encontra com facilidade ao percorrer a beira do rio são capivaras, que por sua vez se sentem em casa.

O papel mais importante da fauna e flora é conservar a qualidade do ambiente e a qualidade da água para que ela seja utilizada pela população ou que faça o seu percurso até o mar. Portanto não existe um rio com qualidade, não existe vida com qualidade se não houver fauna e flora preservadas, toda vez que há um desequilíbrio em qualquer um dos patamares e algum ponto terá prejuízo.

Um jacaré foi clicado há dois anos, tomando um banho de sol, próximo ao Colégio São José

Grupos de capivaras são muito frequentes, por isso a Prefeitura Municipal de Tubarão solicitou um estudo, junto a Unisul para sabe ao certo o número de animais existentes. Primeiro passo foi a contagem do número de animais entre as pontes do quartel e do Morrotes em forma de amostra, pois seria a área de maior contato com humanos. Foram identificadas duas famílias. “A agilidade e facilidade para locomoção, são a impressão de que existam mais animais, mas temos desde a Madre até a Guarda, somente duas família”, explicou o biólogo Joares May. Preocupados com a saúde da população um segundo passo foi dado: a visitação de todas as casas na beira rio nas quatro avenidas que circundam o rio, para saber quantos cães existem e se há infestação de carrapatos nestes animais, pensando sobre a febre maculosa, transmitida por um carrapato comumente encontrado em capivaras, mas que pode parasitar cães e o homem.

O rio, mesmo sendo maltratado pela poluição do homem, é rico em vidas aquáticas. Em toda sua extensão é muito comum ver pescadores lançando suas tarrafas ou seus molinetes na tentativa de pegar um peixe fresquinho. “Na região central de Tubarão ainda se pega muita tainhota. Na região da Madre até os Campos Verdes, em Laguna, o bagre e o robalo são mais abundantes”, destacou José Martins Joaquim, de 62 anos, aposentado e pescador do Rio Tubarão há mais de 40.

Um fato interessante é que o robalo, peixe de água salgada, adotou as águas do rio como berçário, principalmente na região de Capivari de Baixo, pois a Usina Termelétrica Tractebel despeja as águas das caldeiras no Rio Capivari, afluente do Tubarão. A temperatura mais alta da água é propícia a procriação do peixe.

Répteis como pequenos lagartos e cobras não peçonhentas são vistos com frequência as margens do rio.

Esportes náuticos proporcionam lazer e valorizam o rio

Para comemorar os 145 anos do município de Tubarão, foi realizado em maio para homenagear o Rio Tubarão o 2º Encontro do JetSul, onde reuniu aproximadamente 200 pessoas com seus jet skis da região da Amurel. Os participantes saíram do Clube 29, percorrendo ao bairro Morrotes, em seguida prosseguiram à Ponte Anita Garibaldi, em Laguna.

Os praticantes da modalidade foram até Laguna com seus jet skys

Com o céu azul e o rio florido de aventureiros com os seus jet skis, a população que passavam pelas ruas apreciavam as belezas do Rio. Este evento teve como objetivo alavancar a capacidade do Rio Tubarão e mostrar as suas potencialidades.

De acordo com Cláudio Fernandes, “é importante mostrar a integração dos apreciadores do esporte. Foi uma bela movimentação de todos que se envolveram de alguma forma”, ressalta.

No mesmo mês aconteceu a segunda travessia de stand up padle e caiaque Mormaii no Rio Tubarão. A eventualidade contou com a presença em torno de 45 supistas de municípios vizinhos.

Para Marcos Giraldi, “esta travessia vem de encontro ao lazer que os aventureiros tanto gostam”.

Além do lazer através do esporte náutico, o Rio Tubarão proporciona na região os aspectos econômicos tendo em vista as principais ações agrícolas, como a produção de arroz, mandioca, fumo, banana, cana-de-açúcar, feijão, entre outros. Também a criação de peixe, apesar das emergências da bacia hidrográfica do Rio como a escassez da pesca na embocadura do Rio e a pesca predatória.

Com isto, ocorre a ocupação do solo, da água, degradação ambiental, causada pela retirada de mineral e plantio na orla do Rio.

Texto: Nilton Carlos Veronesi