Grafite: arte urbana ou vandalismo?

Considerado por alguns como vandalismo e por outros magnifica arte urbana, o grafite ocupa o espaço das ruas e atinge democraticamente todos os transeuntes causando admiração, repulsa ou indiferença. Quem vive nos grandes centros urbanos pode encontrar os grafites com certa frequência. Tomando proporções cada vez maiores, o grafite se impõe nos muros das cidades, dispensando a necessidade de se expor em galerias.

A humanidade explora a pintura artística em paredes desde a arte rupestre. Contudo, as opiniões divergem. Chamamos de grafite inscrições ou desenhos rabiscados à mão sobre um muro, uma parede, um monumento, uma estátua ou sobre qualquer elemento que esteja na via pública. Em resumo, os grafiteiros pretendem intervir na cidade, aplicando a sua linguagem em espaços públicos. O objetivo é, principalmente, tecer uma crítica social.

Para explicar a pratica o movimento traços urbanos criou um vídeo que traz a cultura do grafite no Rio de Janeiro com o objetivo de valorizar a arte urbana carioca, destacando criações que agregam valor à paisagem da cidade.

O grafite como manifestação artística surgiu em Nova York, nos Estados Unidos, na década de 1970. Consiste em um movimento organizado nas artes plásticas, em que o artista cria uma linguagem intencional para interferir na cidade, aproveitando os espaços públicos da mesma para a crítica social.

No Brasil, o grafite chegou ao final dos anos de 1970, em São Paulo. Hoje o estilo desenvolvido pelos brasileiros é reconhecido entre os melhores do mundo.

Para Gabriela Duzzioni, acadêmica de artes plásticas da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) grafite é arte. “Foi vendo as artes urbanas que eu me interessei pelo curso, as cores e as temáticas sociais sempre me encantaram, me faziam querer estudar um pouco daquilo, trabalhar com aquilo. Hoje eu trabalho com crianças e sempre incentivo muito elas a se expressarem dessa forma. Transformar seu sentimento, sua revolta, sua tristeza em arte é, na minha opinião, a melhor forma de fazer arte”, conta.

Em 2017, o prefeito de São Paulo João Doria (PSDB) acabou em meio a uma polêmica com a decisão de apagar os murais da Avenida 23 de Maio que abrigavam desenhos de grafiteiros e pichadores. Autorizadas pela gestão de Fernando Haddad (PT) em 2015, as pinturas eram chamadas pela gestão anterior de “maior mural de grafite a céu aberto da América Latina”.

Os murais foram pintados por cerca de 200 artistas há dois anos. A gestão Doria decidiu deixar apenas oito dessas obras na avenida, alegando que as demais estavam danificadas ou sofreram pichações.

“Quero deixar claro: pichadores são condenados na nossa cidade. A população não quer a pichação e não vai ter a pichação porque nós vamos fiscalizar e punir os pichadores”, afirmou Doria, em uma agenda pública. “Inclusive pedi um Projeto de Lei à Câmara Municipal de São Paulo para quintuplicar o valor da multa. E os que não puderem pagar o valor da multa, não tem problema nenhum: vão pegar pincel, tinta e limpar a porcaria que fazem na cidade de São Paulo”, finaliza.

Em entrevista ao Kennedy Alencar, Doria afirma entender a diferença entre pichação e grafite e aconselha a quem faz esse tipo de ato a mudar de profissão e trabalhar no munda da arte, no mundo da honestidade e no mundo da verdade e que isso terá o apoio do governo.

Cinco meses após a polemica o prefeito de São Paulo teve sua estreia na arte de rua aconteceu em um muro da Rua Doutor Moacyr Vaz de Andrade, na Vila Gustavo, zona norte paulistana. Ali foi inaugurada na manhã de domingo a primeira área do Museu de Arte de Rua (Mar), projeto da Secretaria Municipal de Cultura que selecionou grafiteiros para colorir muros públicos. Ele pintou um grande coração, remetendo ao símbolo de um de seus projetos mais conhecidos: o São Paulo Cidade Linda. Acima do coração, o prefeito pintou as letras S e P. Ao “assinar” a obra e fez questão de mostrar que o conflito com os artistas de rua ficou no passado. Na mesma parede, deixou registrada a inscrição “J.Doria / Grafite é Arte”.

Em entrevista ao site Brasil ao Minuto o autor de um dos desenhos apagados na 23 de Maio, o grafiteiro Deley, de 18 anos, e que estava no evento afirmou não haver magoas. “Na época, eu achei que (apagar os grafites) foi uma falta de respeito e de diálogo, mas decidi participar do projeto porque considerei que é uma oportunidade para mostrar o valor da arte”.

Grafite como forma de decoração

A arte do grafite transforma a cada dia os espaços públicos nas cidades de Santa Catarina em uma galeria grandiosa e pulsante. Artistas encontraram uma saída para a crise econômica do país e a consequente retração nas vendas, e apostam em outros mercados, como o de decoração.

É assim que trabalho o florianopolitano, Rodrigo Rizo, de 29 anos, em entrevista para o G1 Santa Catarina ele conta como investiu em ações para despertar o desejo no consumidor. “Antes eu simplesmente apresentava um rabisco e o cliente já se sentia confortável em apostar que iria ficar bom. Hoje, faço um esboço mais elaborado, o mais aproximado possível do resultado final, aplicado em uma foto do ambiente”, conta.

Desde adolescente, Rizo já praticava o grafite. O hobby virou profissão e fonte de renda. “O pessoal me via pintando e dizia ‘não quer fazer a decoração de um ambiente para mim?’ ou me convidava para trabalhar em algum projeto”, lembra.

O trabalho de Rizo também está presente no mercado de projetos de arquitetura e de design de interiores. Ele já participou do Casa Cor Floripa e tem trabalhos em ambientes de cafés. Além disso, o artista também desenvolve trabalhos autorais, projetos culturais de cunho social e educativos.

Texto: Maria Luiza do Nascimento