Heteronormatividade: uma construção opressora

Nas escolas ou nas universidades, na rua ou dentro de casa, no mundo virtual ou social, não importa. A LGBTQfobia continua sendo um mau brasileiro que assombra pessoas de todas as idades pelo ódio radical e violência extrema.

Jean Ferreira cresceu e tornou-se adulto sofrendo bullying. Era perseguido e encurralado na escola por ser mais sensível, gostar de andar com suas amigas e não jogar futebol na hora do recreio com seus colegas. A situação foi tão difícil que a primeira vez que foi agredido fisicamente o marcou de forma profunda.

“Foi em uma aula de informática, na sexta série”, conta. “Num canto mais afastado da sala, um menino veio, me agarrou pelo pescoço e disse que ia me bater na saída (não aconteceu). Mas, a partir daquele dia, comecei a sofrer ameaças diárias, além de chutes, tapas etc”.

Em casa, Jean conviveu com um padrasto extremamente machista e religioso que tornava suas interações sociais impossíveis e reprimia a própria existência do enteado. Ele conta que foi impedido de fazer ginástica olímpica porque não era “coisa de homem” e que foi induzido a se comportar de uma forma diferente porque seu padrasto não queria que ficasse parecido com “aquele amiguinho gay” de Jean.

Jean só conseguiu libertar-se disso quando sua mãe se separou e ele alcançou sua independência financeira. “Eu comecei a assumir o discurso de ‘posso usar/fazer o que eu quiser sem deixar de ser homem’”, explica. Ele também fazia questão de deixar isso claro na maneira de ser – antes mesmo de assumir-se gay, coisa que só aconteceria por voltar dos seus 20 anos.

Hoje Jean tem 24 anos, é formado em Farmácia e possui sua independência, mas ainda se frustra constantemente com o uso da comunidade LGBTQ com conotação ofensiva. “Eu ouço quase que diariamente essas ofensas. Principalmente no ambiente de trabalho, onde boa parte dos funcionários são homens heterossexuais”, conta. “A mim, diretamente, não causa desconforto porque eu sou muito bem resolvido. Mas me incomoda, pois isso reforça o quão longe estamos de viver em uma sociedade menos machista”.

Jean Ferreira é estudante de Farmácia e ouve diariamente ofensas homofóbicas. (Foto: Arquivo Pessoal)
Heteronormatividade

A psicanalista Priscilla Figueiredo fala que a sociedade é obcecada pela heterossexualidade simplesmente por uma questão de poder. As pessoas que menos sofrem discriminação são as que mais se encontram no “topo” da sociedade. Essas pessoas têm cara: são homens, brancos, magros, heterossexuais e com alto poder aquisitivo. “Como essas pessoas estão no poder e elas que “criam” as regras e as tendências, começa-se a valorizar isso e desvalorizar o resto”, explica Priscilla.

Essa heteronormatividade presente na sociedade nem sempre foi o padrão. De acordo com a psicanalista, era muito comum, nos tempos antigo, homens se relacionarem. Eram inclusive vistos como um dos únicos objetos de amor, pois eram amigos e se defendiam em batalhas (quando era o caso). A mulher, deixada de lado e vista como fraca, servia meramente para a reprodução.

“Em algum ponto de nossa história, homens hetero estavam no poder, como ainda estão, e começaram, muitas vezes com a ajuda de religiões, a oprimir aqueles que se diferenciavam”, conta Priscilla. Isso tornou-se tão forte e frequente ao ponto de rebaixarem a homossexualidade.

No século XXI, essa desvalorização é influenciada por diversos fatores, sejam diretos ou indiretos. Priscilla diz que muitas falas, ações e argumentos machistas e heteronormativos são reproduzidos constantemente, às vezes de forma escancarada, outras de um jeito mais discreto.

Na sociedade, as falas que valorizam e desvalorizam; na educação, a questão de definir brinquedos específicos para sexos, além de roupas, maquiagem e acessórios serem direcionados para um gênero; na cultura popular, existe precariedade de representatividade. Para Priscilla, é necessário colocar LGBTQs, negros, mulheres nos livros, séries, filmes, peças e não somente como um alívio cômico, mas em papéis importantes em posições de poder. “Assim entenderíamos que são apenas pessoas como quaisquer outras”.

A psicanalista comenta que essa suprema valorização da heteronormatividade tem um impacto enorme em grupos que sofrem com desigualdade social. Além das ofensas verbais e a violência física, “termos de valorização do homem hetero, como “homem com H”, “macho”, também tem forte impacto”, explica.

Priscila também diz que essa opressão é ainda mais forte em crianças e adolescentes que estão desenvolvendo sua sexualidade. Ela pede para pensar em uma criança que está descobrindo sua homossexualidade e imaginar como este discurso distorcido e de valorização a – e somente a – heterossexualidade pode mexer com a criança. “É uma vida de privação, na qual não se vive por inteiro. A sexualidade é parte importante da constituição humana”, diz ela.

Formas de modificar a realidade

            Priscilla diz que uma das formas mais poderosas de criar igualdade é levantar o debate de forma séria e correta. Ela acredita que a reflexão é essencial, pois ajudaria as pessoas a entenderem como pequenas atitudes podem causar danos gigantesco a outros indivíduos. “Se cada um que entende conseguir explicar para mais duas pessoas,” diz, “temos um crescimento exponencial e em poucos anos o cenário será diferente”.

Jean Ferreira pensa de forma parecida, mas para ele o poder também se concentra na mídia e em quem está nela. “Infelizmente a gente ainda está longe de viver em uma sociedade que aceite normalmente os homossexuais, mas só o fato de termos pessoas extremamente em alta na mídia, como a Pabllo Vittar, que está aí dando a cara a tapa dizendo ‘ei, tá tudo certo ser diferente, viu? Pode ser o que você quiser’ já é uma forma de empoderar esses meninos que são como eu era na minha infância/adolescência”, fala com convicção.

Hoje, Jean se sente cada vez melhor consigo mesmo e tem certeza de quem é e o que vai querer ser daqui para frente. “Amor, eu ando com cabelo colorido e compro roupas em loja feminina”, brinca. “Eu quero mais é que a sociedade me veja e saiba que eu existo”.

Texto: Allison de Souza