Hollywood: a criatividade acabou?

Atualmente o cinema é uma indústria altamente lucrativa, com produções que rendem fortunas na casa dos bilhões. É normal ver produções de Hollywood dominar grande parte das salas de cinema, que não tratam como regra, mas em geral, quando se tem pouco espaço para as telonas, tendem a dar preferência para os blockbusters americanos. Porém tratar a sétima arte apenas como um negócio pode trazer algumas desvantagens. Os produtores não investem em roteiros diferentes por medo de perderem seu dinheiro e acabam apostando em modelos mais conhecidos pelo público, gerando uma série de remakes, reboots e adaptações.

O público de 30 anos atrás já não é mais o mesmo. Recentemente uma pesquisa do Ibope revela que os grupos mais assíduos nos cinemas são os jovens entre 12 e 19 anos (28%), depois aparecem os adultos entre 25 e 34 anos (26%). Essa geração cresceu e ainda cresce lendo livros como Harry Potter, quadrinhos, jogos e até mesmo contos de fadas. Por isso há uma forte e compreensível tendência para adaptações de best-seller, games e HQ’S para as telonas.

“Bond, James Bond.” A famosa frase do agente 007 revela que um modelo de filme pode atravessar décadas, sendo a maior franquia cinematográfica – com 26 produções até agora e mais uma vindo por aí. Nos dias de hoje é frequente ver sequências ou spin-offs de blockbusters, tanto é que dos 30 filmes com as maiores bilheterias mundiais apenas três não receberam continuação (ainda). Há também aqueles que ainda não levam o mesmo nome mas estão ligados, como os filmes da Marvel, que já são 17 filmes relacionados entre si e também são ligados com séries de TV.

Saber a diferença entre os termos rebbot e remake pode parecer complicado. A tradução literal para português da palavra remake é refazer, com diferentes atores e poucas mudanças, respeitando a obra original. Um belo exemplo disso é Scarface onde a primeira versão é de 1930, mas é popularmente conhecida pela versão de 1983 com o ator Al Pacino. Já o reboot é um reinício, podendo ser o mesmo personagem usado para contar uma estória diferente das outras já conhecidas pelo público. Um caso bem sucedido foi o personagem das HQs, Batman, que de 1989 a 1997 obteve uma franquia com altos e baixos, e em 2005 recebe uma nova cara levando diversos prêmios com a trilogia O Cavaleiro das Trevas.

Tentar recriar ou se inspirar em um bom filme não é garantia de sucesso. Um filme exatamente igual pode não fazer muito sentido para os apreciadores da sétima arte, e sair muito do arquétipo do original pode ser desastroso. O recente Carrie, A estranha traz isso. A primeira versão de 1976 são utilizados planos e narrativas diferentes para época, concorrendo a múltiplos Oscar o que é incomum para um filme de terror e nenhum dos remakes feitos até então são vistos de forma tão positiva quanto o primeiro.

Os clichês hollywoodianos sempre farão parte do cinema, além do clássico romance “dama e vagabundo” ou a cena “casal reata no aeroporto”. Existem os clichês efêmeros, são os modelos de um filme que faz sucesso e são replicados diversas vezes em um curto período de tempo. Como é o caso de Atividade Paranormal, que aborda o tópico comum da casa mal assombrada, mas usando uma câmera amadora propositalmente, trazendo o modelo “fatos reais ficcional”. Além de produzirem cinco volumes levando o nome da franquia, os filmes influência m uma série de outros filmes como V/H/S, A Possessão de Deborah Logan e O último Exorcismo.

Encarar a cultura como modelo de negócio não é algo recente. Em 1942 os filósofos e sociólogos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer criaram os termos cultura de massa e indústria cultural. Os frankfurtianos teorizaram que a arte não seria mais vista somente como únicas, e sim como um produto que possa ser facilmente reproduzido facilitando o comércio, contudo são também conhecidos por terem uma visão pessimista sobre o assunto. Enxergar oportunidades nos audiovisuais pode ser algo muito positivo, como é o caso do Uruguai que até 1990 não produzia filmes e agora o cinema passou a fazer parte do PIB do país, além de constantemente serem premiados em diversos festivais pelo mundo.

Por outro lado, o cinema independente se desenvolve. Seus roteiros com ideias diferentes cativam os cinéfilos que fogem das películas comuns. Por não possuírem um roteiro clássico, é difícil um produtor investir uma quantia alta em dinheiro, entretanto o investimento baixo pode gerar um lucro maior que o esperado. Esse subgrupo está cada dia mais popular e é possível ver com mais frequência essas produções, sendo indicados a importantes premiações como o Globo de Ouro ou até mesmo o Oscar. Foi o caso do O Quarto de Jack, que tinha um orçamento dez vezes mais baixo que O Regresso ou Mad Max, concorrentes da categoria de melhor filme, e mesmo assim conseguiu levar a estatueta de melhor atriz para Brie Larson e também foi indicado a outras três categorias.

Texto: Thalia de Souza