Jovens não se enxergam na política

Democracia: governo em que o povo exerce a soberania. Embora falar sobre política pareça estar cada vez mais difícil, devido aos problemas com a falta de representação e debates extremamente polarizados, o poder do voto é essencial para mudanças, e historicamente, quem não gosta de política é governado por quem se interessa, e esta é uma boa maneira de manter uma nação sob controle.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o índice de jovens entre 16 e 17 anos que estão aptos a votar este ano é o menor já apresentado em 16 anos. No ano de 2018, pouco mais de um milhão de jovens optaram por fazer o título, isso corresponde a 0,9% do eleitorado. Em comparação com as eleições de 2002, o número de eleitores com votos facultativos no mesmo período era de 1,9%, a intenção nesta faixa era quase o dobro, revelando uma enorme diferença em relação a este ano.

A população enfrenta problemas na hora de ser representado, e isso ocorre principalmente entre os jovens. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha, o índice de votos brancos e nulos chegou a 28%, ultrapassado a intenção de voto em qualquer presidenciável. A falta de representatividade fica ainda mais evidente quando o perfil dos candidatos este ano é homem, branco, com 48 anos. Enquanto a população brasileira é formada majoritariamente por mulheres, pessoas com pele negra ou parda e jovens entre 15 e 24 anos.

Debate

É normal que a geração mais velha mostre desconfianças em relação a postura de uma geração mais nova. Nas relações intergeracionais os dilemas de educar tendem a ser mais complexos, pois há uma geração com princípios consolidados (educadores, familiares), construídos em um contexto completamente diferente, com a tarefa de educar jovens com valores ainda em formação. Embora os conflitos sejam naturais, eles não devem resultar em juízos de valores superficiais ou preconceituosos.

Para a estudante Débora Cardoso, 22 anos, ainda há uma resistência em sua família na hora de debater política. “Temos opiniões bem divergentes quanto a isto, por exemplo, sinto que meu pai não está aberto a falar sobre política comigo. Tenho interesses mais humanos e priorizo o crescimento de outros setores, enquanto ele não”, salienta.

Já para Daiane Diolinda, de 22 anos, a situação é completamente oposta: a família não discute política em casa e a escolha do voto ocorre de maneira individual. “Cada um vota em quem quiser, cada um tem sua ideologia. Apesar de não haver uma discussão em casa, os interesses acabam sendo parecidos. Educação, segurança e saúde e de modo geral, um mundo melhor com mais igualdade”, conta.

Em ambas as situações, o resultado pode ser desastroso, pois não há debate. A qualidade dos candidatos reflete na qualidade da administração pública, da transparência e da participação política. Portanto, discutir política é fundamental para garantirmos uma vida de qualidade para todos. E é ao falar de política com nossos amigos, familiares que podemos exercer nosso papel de cidadão ao conscientizar outras pessoas sobre a importância do voto consciente.

 

O peso do debate na internet

Um outro fato que dificulta as discussões acerca da política no ambiente digital é o surgimento de bots. As contas automatizadas ou bots, como são chamados, são utilizados não apenas para aumentar o número de seguidores, mas também para forjar ataques e discussões políticas, manipular debates, pesquisas e replicar notícias falsas de uma forma abrangente.

Segundo o estudo publicado no ano passado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas, sobre as eleições de 2014. Cerca de 10% das interações no Twitter relacionadas às eleições presidenciais daquele ano foram realizadas por contas vinculadas a robôs. Na época dos protestos contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o número chegou aos 20%. A mesma porcentagem foi observada nas interações com participação de apoiadores do senador Aécio Neves durante o segundo turno das eleições de 2014. Demonstrando um grande potencial para gerar falsos conflitos.

A influência da internet na sociedade ainda é tema de discussões, por ser um fenômeno recente na história da humanidade, a tecnologia acaba despertando mais dúvidas do que certezas. No campo político não é diferente: não faltam discussões, ataques, críticas e boatos direcionados a partidos, políticos ou ideologias nas redes sociais. Embora ela possa contribuir para o debate democrático e facilitar o acesso à informação, isso acontece de fato?

Para estudante Mateus Tizol, 21 anos, as redes sociais podem funcionar como espaço para discussão, mas nem sempre isso acontece da maneira correta. “Acredito que ela possa se tornar amplificador do discurso, mas também é responsável pela diminuição do debate. Muitas pessoas acabam tendo acesso a informações falsas ou descontextualizadas e usam a internet para se expressar, podendo influenciar outros eleitores dados mentirosos”, conta.

Para o analista político Everaldo Silveira, a internet é uma importante fonte de informação, mas o problema está no modo de usar as redes sociais. ‘No formato atual, apesar de potencializar a oportunidade de debate, não quer dizer que as redes sociais sejam de fato um espaço ideal para formação de opinião. Ele está mais para fórum de defesa de posição pessoal do que local para esclarecimentos”, explica Everaldo.

Embora as notícias falsas não sejam invenção da atual geração, a velocidade em que ela é propagada, é potencializada através das novas tecnologias. “Este fenômeno acontece ao longo da história da humanidade. O que muda é que o volume é muito maior. A rapidez das vocalizações é incontrolável. Por outro lado, há muitas fontes de pesquisas, como os veículos de comunicação, e sites especializados em investigar fake news, que podem servir para investigar a veracidade.

 

Entrevista: “A alienação gera consequências desastrosas”

Rolando Christian Coelho atua como analista político há 28 anos. É bacharel em Psicologia, Ciências Políticas e Comunicação Social com especialidade em Jornalismo.

Quais as consequências de um povo que não se interessa por política?

Christian: A vida em sociedade passa necessariamente por decisões políticas. A alienação em relação a estas decisões políticas, por óbvio, gera consequências desastrosas para o cidadão e para a própria sociedade, na medida em que, ao não conhecer os meandros da administração pública, a população outorga à meia dúzia de políticos as decisões que afetarão a coletividade. Ignorar a política é como assinar uma promissória em branco para que políticos, por conta própria, e a seu bel prazer, decidam por você.

Sobre a internet. Você acha que ela potencializa a participação do jovem e traz o debate com mais força sobre política? E as fake news, também podem possuir um grande poder de influência e dificultar ainda mais a fiscalização da classe política?

Christian: O que tenho observado nas redes sociais, no que se refere a política, é algo diametralmente oposto a política. Os debates travados parecem mais guerra de torcidas do que defesa ou contestação de ideias. Por óbvio que isto está ligado diretamente ao próprio fato das pessoas, de um modo geral, desconhecerem os processos políticos, não sabendo conceitos básicos de administração pública. Por conta disto, brincam por coisas totalmente sem sentido, deixando de discutir política na acepção da palavra. Em relação a internet de forma geral, o que posso recomendar que é que a população se atente a artigos de credibilidade, sejam eles regionais, estaduais ou nacionais. Em relação as fakenews, elas são de um desserviço total a população. Neste sentido, seguem a mesma lógica da não política, do estímulo a aludida guerra de torcidas já citada anteriormente. Não acredito que as fakenews mudem comportamentos de eleitor, mas, sem dúvida, elas estimulam opiniões já consolidadas a se fortalecer. São mais ou menos como jogar gasolina numa fogueira já acessa.

Texto: Thalia de Souza e Jean Domiciano