“A modernização do carvão” – O futuro de um dos setores mais tradicionais do estado

Com as energias renováveis ganhando cada vez mais espaço em todo o mundo, o destino da mineração de carvão se torna mais incerto. Sem o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que não financia mais nenhum projeto ou investe em fontes fósseis, estaria um dos setores mais tradicionais do estado com os dias contados? Para o Presidente da Associação Brasileira de Carvão Mineral (ABCM), Fernando Luiz Zancan, a resposta é clara: Não. Para Zancan, o que precisa ocorrer é a “modernização do carvão”.

Com a dificuldade em conseguir financiamento para novas usinas, a ABCM além da busca por investimentos fora do país, desenvolve projetos para expandir e modernizar o setor. Zancan acredita que o carvão, e a energia provinda dele, vão durar por muitos anos, uma vez que ainda representam a segurança energética do sul e do Brasil, que depende dos reservatórios do sudeste.

Hoje são, pelo menos, 2.281 mineiros em Santa Catarina, divididos em seis minas, sendo o destino do carvão extraído nessas carboníferas, a ENGIE Brasil Energia (Antiga Tractebel), geradora privada de energia elétrica. Como muitas usinas térmicas estão em fim de vida útil, algumas com mais de 50 anos de operação, as mineradoras procuram investir em tecnologias apenas para diminuir custos e reduzir o impacto ambiental. Segundo a ABCM, um dos objetivos agora é modernizar o parque existe, substituindo as usinas antigas.

Outra aposta no setor, que visa, além de “fazer a lição de casa” no quesito ambiental, prolongar e facilitar investimentos na área são as plantas de captura de CO2. O Centro Tecnológico da SATC já desenvolveu a tecnologia de absorção, e o projeto que tem previsão de início de funcionamento para de julho. Via leilão, espera-se a implantação de, pelo menos, 1300MW na substituição das usinas não econômicas competitivamente, além de também atrair cerca de 10 milhões de reais em investimento novo. Essas novas usinas e investimentos gerariam, segundo ABCM, cinco mil empregos na construção de cada usina, e mais 53 mil na cadeia produtiva.

“A [energia] solar e a eólica são intermitentes, ainda é necessário uma energia estocável” explica Zancan, “Há uma discriminação do carvão na mídia, mas ninguém fala do petróleo”.  O presidente da ABCM acredita que quando se trata de sustentabilidade, como a tabela da ODS – Agenda 2030 (Objetivos de Desenvolvimento Sustentavel), o carvão tem assunto mais amplo, não limitado ao CO2, mas para geração de emprego, investimentos na educação e tecnologia, por exemplo, como no caso da SATC.

O leilão que acontecerá em agosto é próximo momento decisivo para a construção da Usina Termelétrica Sul Catarinense (Usitesc) e para o próprio setor. Mas, ao mesmo tempo, é apenas um passo. Para Zancan é importante que continue o investimento em tecnologia para reduzir o impacto ambiental, o desenvolvimento de programas e projetos, e lembra que “carvão não é só elétron, ele também faz gás”.

Caso esses investimentos e modernizações não sejam feitos, a associação prevê perda da “cultura de mineração”, perda de movimento econômico, desemprego nas regiões mineradoras, desativação gradual do parque térmico até 2027, dificuldade de atração de investimentos internacionais e para infraestrutura, e a geração de passivo ambiental pela paralização das minas antecipadamente ao plano de lavra, prevista de mais ou menos um bilhão de reais. E a urgência na definição das medidas é justificada pelo tempo de espera no processo, sendo três anos para licenciamento, mais cinco anos para a construção das usinas.

 

Os olhos de Deus e as pedras soltas

 

De acordo com o presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Carvão FITIEC – PR/RS/SC, Genoir José dos Santos, as principais lutas do sindicato são por melhores condições de vida, trabalho, meio ambiente e, principalmente, o desafio de evitar acidentes fatais envolvendo máquinas e eletricidade. A atividade de extração de carvão em minas de subsolo tem o risco máximo pela classificação do Ministério do Trabalho.

Iadir Pereira, mineiro aposentado, conta que semanas antes de concluir seus anos de serviço, uma pedra quase caiu em cima dele enquanto fazia um procedimento padrão. “Quando vemos ‘pedras soltas’ pequenas no teto nos mesmos tiramos, achei que esse era o caso, mas caiu uma maior”, explica. Nem sempre os capacetes protegem os mineradores dos perigos das minas. Foi na iluminação baixa, no meio de todo o pó, entre o barulho das grandes máquinas e das botas dos mineiros que entram e saem da mina, onde o mineiro perdeu nove amigos.

Ele ainda conta sobre o quão comum são os “pequenos acidentes”. Foi um descuido rápido que deixou outro amigo seu no “fundo da cama”. “Eu não ‘baixo’ a mina sem pedir a proteção divina”, explica, “Apesar de me cuidar bastante, preciso também confiar nos olhos de Deus. Tem muita coisa que eu não vejo”, conta o mineiro que apesar do perigo, não teve medo de trabalhar em uma mina.

Segundo Genoir Santos, os salários e obrigações trabalhistas dos mineiros estão em dia. Esses não são mais problemas frequentes, uma vez que consta no contrato de entrega de carvão [com a ENGIE Brasil Energia] a apresentação de Certificação Negativa (CND) a cada três meses, o que permite uma maior fiscalização.

Texto: Beatriz Goulart