Precisamos falar sobre o que aconteceu em Stanford

Na imagem acima, Brock Turner

Para quem não sabe, Stanford é uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Localizada em Palo Alto, Califórnia, está no maior polo de tecnologia do planeta: o Vale do Silício. Entre seus ex-alunos estão os fundadores do Google, Nike, HP, Snapchat e Yahoo!, além do maior jogador de golfe de todos os tempos, Tiger Woods.

Acostumada a aparecer na mídia quando o assunto é tecnologia e formação de milionários ou ex-alunos de prestígio, o cenário mudou para a universidade nos últimos dias após um caso de estupro. Para entender o que aconteceu, precisamos voltar no tempo. Mais precisamente, à festa de uma fraternidade em janeiro de 2015.

O que aconteceu com uma garota nos Estados Unidos poderia ter acontecido comigo, com você ou com qualquer mulher que você conheça. Inclusive, isso é algo que ocorre com frequência nas universidades de lá. Pelo menos sete instituições estão sendo investigadas pelo Departamento de Educação Americano por negligência em casos de abuso sexual. Nenhuma delas é Stanford, mas poderia ser.

Em janeiro de 2015, uma garota, que não teve o nome divulgado, foi encontrada atrás de uma caçamba de lixo sem roupa e com escoriações pelo corpo. Em cima dela, a estuprando, estava Brock Turner, ex-aluno/atleta da Instituição. Dois estudantes que passavam de bicicleta no momento do ato pararam para prestar socorro a garota, que estava desacordada. Brock tentou fugir, mas foi capturado e preso. Ele foi expulso e proibido de entrar no campus da universidade novamente, e perdeu todas as chances que tinha de disputar as Olimpíadas deste ano. Porém, quem perdeu tudo naquele inverno não foi ele.

Um ano e dois meses depois, os 12 jurados do caso, oito homens e quatro mulheres, declararam o rapaz culpado por três crimes: abuso sexual com intenção de estupro de uma mulher intoxicada, penetração em uma pessoa inconsciente e penetração em uma pessoa intoxicada. Pela lei estadual da Califórnia, Turner deveria cumprir 14 anos de reclusão. O juiz do caso, Aaron Persky, também ex-aluno/atleta de Stanford, o condenou a seis meses de prisão, com direito a liberdade condicional. Para ele, uma pena maior poderia “afetar Brock severamente”.

Esse é o tipo de notícia que você vai ler na maioria dos veículos. Um garoto rico de Stanford que estuprou uma desconhecida. Ou uma desconhecida estuprada por um garoto rico de Stanford. Isso também serve para as manchetes falando do juiz ou do advogado do estuprador, Michael Armstrong, também de Stanford. Você nunca leria sobre quem é essa garota. Muito menos sobre o quanto isso a afetou. Talvez você se revolte com o rapaz, talvez você julgue a garota, ou talvez você compartilhe da mesma opinião do pai do criminoso: “20 minutos não podem destruir o futuro de um garoto promissor”.

Mas, essa garota fez o favor de mostrar o que ela passou. Através de uma carta de 12 páginas lida olhando nos olhos de seu estuprador, ela emocionou o mundo descrevendo o que ela sofreu desde que acordou no hospital até o momento de ver a impunidade daqueles que carregam instituições poderosas no nome.

Ela começa com um “Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isso que nós estamos aqui hoje”. E segue contando os motivos que a fizeram ir àquela festa. Depois disso ela já estava no hospital, sem lembrar o que aconteceu antes. E conta: “Eu tive diversos cotonetes inseridos na vagina e no ânus, agulhas para injeções, comprimidos. Tive uma Nikon apontada diretamente para as minhas pernas abertas. Eu tive longos tubos pontiagudos inseridos em mim e tive minha vagina lambuzada de tinta azul fria para procurar por escoriações. Depois de horas disso, eles me deixaram tomar banho. Eu fiquei lá examinando meu corpo sob a água corrente e decidi: eu não quero mais meu corpo. Eu estava apavorada com ele, eu não sabia o que tinha estado dentro dele, se ele havia sido contaminado, quem havia tocado nele. Eu queria tirar meu corpo como um casaco e deixá-lo no hospital com todo o resto”.

A jovem deixou o hospital sem saber o que tinha acontecido. Não conseguia comer ou conversar com os pais, a irmã ou o namorado. Depois do trabalho ela dirigia para longe e chorava. Não conseguia mais interagir com as pessoas. Até que ela descobriu o que aconteceu com ela. Junto com o resto do mundo: “Foi assim que eu descobri o que aconteceu comigo, sentada na minha mesa lendo as notícias no trabalho. Eu descobri o que aconteceu comigo ao mesmo tempo em que todo mundo descobriu o que aconteceu comigo. Foi aí que as folhas de pinheiro no meu cabelo fizeram sentido. Elas não caíram de uma árvore. Ele tirou minha roupa íntima, seus dedos estiveram dentro de mim. Eu nem sequer conheço essa pessoa. Eu ainda não conheço essa pessoa”.

As próximas páginas são preenchidas com o que ela passou para tentar superar aquilo. Colheres de alumínio congeladas para disfarçar o inchado do choro, madrugadas em claro porque qualquer sono traria pesadelos de estar sendo estuprada novamente, uma hora de folga no trabalho todos os dias para que ela pudesse chorar sozinha em algum canto. Se tudo isso não fosse suficiente, havia ainda a invasão de uma defesa que a qualquer custo queria descobrir algo contra ela para inocentar aquele “pobre” garoto.

Você pode ler a carta na íntegra aqui , e eu os aconselho que leiam.

É provável que enquanto você estiver lendo este texto, uma festa esteja rolando em uma fraternidade americana. É provável que uma mulher esteja sendo violentada em algum lugar no mundo. Nas próximas três horas uma melhor vai ser estuprada no Brasil e irá denunciar. Imaginem quantas podem estar sendo machucadas agora e não irão falar nada. Uma jovem vai ser estuprada por mais de 30 homens, mas as pessoas ainda vão buscar motivos para culpá-la. Uma repórter vai entrevistar um homem e vai ser assediada. Se ele for famoso e ela denunciar, milhares de fãs do rapaz irão defende-lo, e a cultura do estupro vai continuar.

Nós precisamos falar sobre o que aconteceu em Stanford porque afeta a todos. Aconteceu e acontece todos os dias. Dentro do campus de uma universidade. Dentro de um lugar que deveria investir na evolução e na educação de seres humanos para que eles saíam melhores pessoas e melhores profissionais. Se algo que é feito dentro de um ambiente acadêmico não é julgado e punido de forma correta, o que garante que o que acontecer em cada esquina, rua, bairro, cidade ou local terá a devida atenção e julgamento?

Ela está certa. Ontem foi ela, mas poderia ter sido eu. Poderia ter sido você. E está sendo outra pessoa neste exato momento. A vida de uma mulher vai ser mudada para sempre, e mesmo assim a sociedade buscará motivos para culpá-la. Ou é a roupa, ou é o jeito, ou é a maquiagem, ou é a bebida, ou é o comportamento, ou é o cabelo, ou é local, ou é a vida sexual. Ou, eles vão inventar.