Retrato do abandono em Laguna: de palco do samba a depósito de sucatas

Prédio pode ficar sem vigilância e prefeitura pretende assumir a gestão do local

Construído no ano de 2007 para ser o palco dos desfiles das cinco escolas de samba de Laguna, o Sambódromo Hindemburgo Moreira se tornou um grande problema para o Governo do Estado, atual responsável pelo prédio. Tudo isso porque sua principal finalidade, em tese, não saiu do papel.

Com investimento de mais de R$ 3 milhões, o espaço hoje serve apenas para abrigar a sede da Unidade de Atendimento de Laguna, ou o que restou da extinta Gerência Regional de Educação, o Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) e a Associação Cultural, Social e Terapêutica da Região da Amurel (Acustra).

“Me entristece muito ver um prédio como esse, que poderia ser usado, quem sabe, nos desfiles de 7 de setembro ou tendo outras utilidades para as crianças e jovens, por exemplo”, diz Pedro Silva, morador do Campo de Fora, bairro vizinho a estrutura.

Menos de sete anos após a inauguração, o local deixou de ouvir o batuque das baterias e o sambar das passistas para virar um espaço ocioso, tomado pelo mato e com sinais nítidos de abandono. Os refletores já nem se encontram mais nos postes, que aparentam risco de queda, tamanho o estado do desprezo. Sem falar no básico, como manutenção da pista de desfile, pintura e até as grades e cadeados, a maioria enferrujados ou danificados.

A situação piorou ainda mais com a desativação da Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Laguna, no ano passado, onde grande parte do expediente era dado no local. Com a extinção do órgão, nem os poucos funcionários que restaram sabem ao certo o destino do sambódromo, que serviu para abrigar veículos inutilizados do governo estadual, alguns dos quais, integravam a frota da ADR e da prefeitura de Laguna. “Esse cenário chega a assustar e só demonstra o abandono e descaso com nosso dinheiro”, lamenta Pedro.

Depois que fotos foram postadas nas redes sociais, os veículos foram retirados do local. A nossa equipe procurou a administração municipal e representantes do governo catarinense para entender a situação que acontece há alguns metros do Centro Histórico, distante dos olhares mais atentos.

“Com a desativação da ADR de Laguna e depois a de Tubarão, ficamos sem saber quem responde pelos prédios do Estado. Já registrei na Secretaria de Administração de SC e ao deputado estadual Felipe Estevão a situação de abandono e sem gestor do sambódromo e entregamos um documento formalizando o interesse do município em gerir o local. Além disso, cobramos providências com relação à demolição do prédio do Centro Social Urbano (CSU), que é do estado e a destinação e vigilância do terreno da ex-Codisc, na entrada da cidade”, afirma Mauro Candemil, chefe do executivo de Laguna.

O documento a qual o prefeito se refere foi entregue em 2 de maio, na sede da Casa Civil, em Florianópolis, em ato onde o governo do Estado repassou ao município de Laguna a cessão do projeto do acesso Norte, via Barbacena.

Na oportunidade, o secretário da Casa Civil, Douglas Borba afirmou que “o pedido deve ser respondido em 90 dias, já que o estado segue fazendo um levantamento de todos os imóveis de sua responsabilidade”.

Sobre a situação, o deputado Felipe Estevão (PSL), diz que deverá discutir o assunto com o governador Carlos Moisés e com o chefe do executivo lagunense. “Estou marcando uma reunião com o governador, onde eu e o prefeito Mauro vamos falar da situação do sambódromo. Não é minha prioridade número um, mas está no nosso radar e o que estiver ao alcance para lutar por essa estrutura, lutaremos”, destaca.

Em troca, o a prefeitura deve ceder ao Estado um prédio menor, localizado próximo ao hospital, onde já funcionou a Câmara de Vereadores. “A princípio o governo estadual se mostrou solícito ao nosso pedido e estamos confiantes em nos próximos meses termos o poder de assumir o sambódromo. Nosso medo é que o local, que deve ficar sem empresa responsável pela segurança e vigilância, possa ser invadido e ter bens furtados e depredados”, salienta o prefeito.

A intenção, segundo Candemil, é após ter autonomia para administrar o prédio levar boa parte dos serviços municipais e economizar com os alugueis de salas. Sobre os carros sem utilidade depositados no pátio do sambódromo, ele disse que foram recolocados em um terreno da Secretaria de Obras e em breve irão para leilão.

Desfiles no sambódromo

Mesmo com a possibilidade de a prefeitura assumir a gestão do sambódromo, provavelmente os desfiles oficiais não acontecerão, pelo menos nos próximos anos, no local. “As arquibancadas e sistema elétrico apresentam problemas. O local é ideal para o evento, mas, para que os desfiles aconteçam ali no próximo ano, o governo do Estado, que é responsável pelo sambódromo, precisaria investir na reforma e manutenção”, explica o secretário de Turismo, Evandro Flora.

A prefeitura deve optar em retornar com as apresentações dos desfiles oficiais no Centro Histórico, como antigamente.

João de Souza Júnior, conhecido na cidade por ‘Dão’, carnavalesco e atual presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Laguna (Liesla) lamenta a situação em como se encontra o sambódromo. Ele recorda que a ideia de se construir um local apropriado para os desfiles surgiu em 2003, quando o ex-governador Luis Henrique da Silveira, a convite do ex-prefeito Adilcio Cadorin, acompanhou a apresentação na Rua Gustavo Richard, no centro.

“Empolgado com a beleza das escolas, ele disse que aquele espetáculo merecia um melhor local, prometeu em público um sambódromo e cumpriu. A prefeitura cedeu o terreno, mas não fez a infraestrutura do entorno, como a pavimentação da estrada de acesso ao local, a concentração, dispersão e os barracões, mas mesmo assim, foram realizados os desfiles entre 2007 a 2013”, relembra Souza Júnior.

Segundo o presidente da Liesla, por várias vezes a entidade solicitou um espaço para que as escolas de samba pudessem ocupar algumas salas, para reuniões, confecções de fantasias e oficinas para a comunidade, o que nunca foi atendido pelo Estado. “Muitas coisas boas poderiam ser instaladas ali. Jamais poderiam deixar chegar ao ponto que chegou numa obra construída com recursos públicos, hoje jogada às traças. Tudo isso é muito lamentável, no rol da cidade do já teve. Mais um item está sendo acrescentado: Laguna já teve um sambódromo”, lamenta Dão.

 

Texto: André Luiz da Rosa

Jornal Laborátorio

Fotos: Elvis Palma