A HISTÓRIA DE ARTISTAS INDEPENDENTES EM MEIO À PANDEMIA

Três realizadores conversaram conosco e contaram situações diversas envolvendo seu trabalho no período

Foto 1: Artistas precisando de um sinal

Foto: Amanda Pase

ADAPTAÇÃO À PANDEMIA

O mundo precisou se adaptar à terrível situação da pandemia da Covid-19, e no audiovisual independente feito no Brasil não foi diferente. Grandes veículos de produção como Disney, Netflix e Globo mantiveram sua produção incessante de conteúdo sem muitos atrasos ou prejuízos. Porém, o mesmo não pode ser dito para artistas que estão começando no mercado de trabalho.

A arte é subjetiva e singular, reflete a condição prática e psicológica em que foi criada, e isso foi ficando cada vez mais claro conforme realizamos as entrevistas com diferentes profissionais independentes do audiovisual brasileiro.

A própria maneira de pensar pré-produção audiovisual, que envolve os primeiros rascunhos da obra como seu roteiro e afins, mudou no último ano. Leonardo Amorim, 22 anos, realizador alagoano que já trabalhou em diversos curtas próprios, além de projetos de outros cineastas, conversou conosco sobre como sua relação com a pré-produção de um projeto mudou desde o começo da pandemia e passou a lhe ajudar a sobreviver aos dias difíceis.

 “[…] especialmente ao ocupar espaço na minha cabeça, permitir focar em algo em períodos de isolamento e de pessimismo extremo. Não tanto assistindo filmes, mas mais desenvolvendo projetos de curtas e longas” nos contou Leonardo.

Até quem trabalhou com audiovisual majoritariamente de casa no último ano precisou se adaptar. Marcella dos Santos Silva tem 23 anos, é videomaker — grava e edita vídeos — e estudante de cinema na Unespar Campus de Curitiba, e precisou adaptar o seu quarto para um mini escritório, já que passaria o ano de 2020 trabalhando ali.

“Eu trabalhava mais em agências e empresas físicas antes da pandemia. Agora atuo como freelancer, então o espaço e equipamento precisaram ser adaptados para o trabalho. Ter um ambiente onde eu me sinta confortável contribui muito para o processo criativo e para o bem-estar mental também, então foi o que mais mudou para mim”.

O home office não foi adotado apenas por cineastas independentes, mas por grandes estúdios de cinema também. Jean-Luc Godard, cineasta francês, editou todo seu último filme em seu computador pessoal em casa, o roteirista e produtor de cinema Zack Snyder passou aproximadamenteum ano reeditando Liga da Justiça numa versão de 4h de filme no habitual estilo “corte final do diretor” —  quando a versão lançada é a que o diretor quer e que não passa por alterações por parte do estúdio.

Fotos 2 e 3: O fotógrafo Lucas Matiola se reinventando através das lives

Foto: Lucas Matiola filmes –  

O MEDO DAS FILMAGENS

No entanto, não apenas de pré e pós-produção o cinema é feito. Alguns realizadores que estavam saindo do estágio de pré-produção e entrando no de produção também foram afetados pela chegada da pandemia. Chayene Ribeiro tem 24 anos, é apaixonada por cinema e cursa Jornalismo no Campus Pedra Branca da Unisul. Seu Trabalho de Conclusão de Curso é o “Floripa is Burning”, um documentário inspirado no Paris is Burning, filme-documentário de 1990 sobre a vida noturna da comunidade LGBT de Nova York.

Chayene nos contou as intenções por trás da realização deste documentário: “Aqui em Floripa a região do centro velho é frequentada por universitários, LGBT’s friendly, pessoas com ou sem poder aquisitivo. Chamam de rolê democrático, mas é um rolê que sofre boicote por ocupar as ruas. Comparando com os beach clubs da ilha, a violência policial é muito maior nos nossos bares. Esse documentário quer mostrar isso”, nas palavras da realizadora.

Porém, pouco depois de seu projeto tomar vida e ela começar a sair à noite para as gravações, a pandemia chegou. O documentário começou a ser gravado em dezembro de 2019. “A base do meu documentário era mostrar o fervo que acontecia no centro, chegando a somar 6 mil pessoas em uma única rua durante a semana. Com a chegada da pandemia o meu deadline foi ficando curto, tive que parar as gravações, até porque não dá para falar da vida noturna sem vida noturna. Meu documentário teve que mudar o direcionamento no meio do ano passado”.

Não só Chayene teve que adaptar seu projeto às situações que foram surgindo. Leonardo nos contou que durante as gravações de projetos de guerrilha como“Subsidência”, curta-metragem alagoano sobre o desastre ambiental causado pela mineração de sal-gema que atinge Maceió, tanto na parte psicológica do processo de criação houve uma intensidade de “pra que fazer isso agora?” nos piores momentos.

Em alguns casos esse “fantasma do Covid” realmente afetava na prática o processo de gravação. Chayene enfrentou problemas sérios durante as filmagens de seu documentário, a ideia de uma câmera gravando as pessoas à noite nos bares aterrorizava os moradores de Florianópolis, mesmo a estudante de jornalismo tendo autorização da prefeitura para estar ali.

 Ela nos contou que teve “diversos problemas porque as pessoas já estavam retornando aos bares e aglomerando. Quando eu chegava com a câmera no local, muitos achavam que eu era de algum veículo de imprensa e xingavam, ameaçavam quebrar a câmera e na verdade meu foco nunca foi falar da pandemia no documentário, então até eu explicar isso, as pessoas já estavam alteradas”.

Porém, nem tudo são problemas e complicações, a jornalista e cineasta amadora consegue ver um lado positivo no rumo que o “Floripa is Burning” tomou durante a produção. “A grande vantagem de fazer esse trabalho é que ele se transformou num documentário colaborativo. Todos os frequentadores do Centro velho começaram a mandar os registros antes da pandemia, do carnaval, ruas lotadas depois da aula, eventos culturais… Todos que estão morrendo de saudade da rua, contribuíram para o doc. Foi super legal ver e receber os vídeos”

Não seria uma surpresa se o seu documentário tomasse um rumo “cinema de colagem”, um subgênero em que os filmes são feitos a partir de imagens de arquivos, seja registros históricos ou filmagens amadoras feitas por pessoas comuns. Marcella nos adiantou que seu próximo projeto, que ela pretende “começar semana que vem e terminar até o meio do mês que vem [maio]”, seguirá a linha desse cinema de colagem, como ela mesmo chama “filmes diários”.

É um estilo muito utilizado por cineastas amadores por não depender de filmagens feitas por eles mesmo, mas apenas acesso a arquivos e meios de edição. Cineastas amadores no Brasil se destacaram na última década neste gênero, como Arthur Tuoto, Pedro Tavares e Vinicius Romero.

“SEGURO, REVITALIZADO E DEMOCRÁTICO!”

Contudo, não apenas de cinema de colagem pode ser feito cinema nacional. O cenário pandêmico não está otimista, mas segundo Leonardo, “a história do cinema brasileiro é cíclica. O cinema demanda uma cadeia produtiva, que se faz com financiamento. A quantidade de emprego nessa área vai mudar de região para região, estado para estado, a depender da situação de editais. Por exemplo, há os filmes da Aldir Blanc que é um a lei que incentiva financeiramente os projetos culturais foram adiados devido ao agravamento da pandemia, mas em Maceió houve o edital de 2019 da FMAC e ANCINE, fruto dos arranjos regionais”.

Marcella não consegue ser otimista e citou os diversos cortes que o setor público do audiovisual brasileiro vem recebendo nos últimos anos, em 2020 por exemplo, o atual presidente Jair Bolsonaro cortou 43% da verba da Ancine. “É claro que o audiovisual ainda se sustenta melhor porque está muito atrelado à publicidade, um setor que não sofreu tanto, mas quando pensamos em cinema e editais de incentivo, o cenário é bem mais obscuro”.

Leonardo comentou sobre os cortes e o desinteresse do governo em uma produção audiovisual democrática e pública, porém disse que isso não é garantia que o cinema nacional irá acabar, apenas de que será, se tudo seguir assim, cada vez mais elitizado. “A certeza é que sempre vai ter filme, por bem ou por mal, com financiamento ou sem, quem tem a possibilidade de fazer filme sem se preocupar em não gastar dinheiro, quem tem contato pra conseguir equipamento, acho que o financiamento e editais são especialmente importantes tanto para permitir a pessoas que não tem possibilidades de fazer filme ‘sem grana’ quanto assegurar que cineastas vão tentar alcançar sua visão da melhor forma”.

O futuro é nebuloso para aqueles que trabalham com audiovisual independente no Brasil, o que os entrevistados nos mostraram, porém, é que existem meios de continuar criando, seja de casa ou na rua, sempre tomando todos os cuidados necessários. A certeza que temos, por hora, é que Chayene conseguirá terminar seu documentário. “Sigo agora para a etapa final, com as últimas entrevistas e edições. Espero que o resultado represente os frequentadores que foram muito importantes para que aquela área se tornasse um local seguro, revitalizado e democrático!”.

ARTISTAS SE UNEM PARA GANHAR DESTAQUE

A união de poetas foi muito importante para o crescimento do trabalho da classe. O Coletivo Umaré foi formado para a produção de conteúdo audiovisual. Os artistas de Laguna Gui Reynaldo, Dijjy Samsa e Raul Silter foram os idealizadores do projeto, que visa aumentar a visibilidade e o reconhecimento para as poesias. O projeto também atua no segmento musical com composições poéticas em forma de canções. O coletivo dá voz para artistas locais que não são conhecidos no mercado nacional, a internet hoje é uma grande vitrine para a divulgação. Ouça na reportagem de Kamila Melo.

O Umaré está nas redes sociais onde você pode acompanhar no Facebook, Youtube e Instagram.

ARTISTAS MUSICAIS E PLÁSTICOS SE REINVENTAM DURANTE A PANDEMIA  

Em todo o mundo a resiliência em vários segmentos foi o segredo para os profissionais de alguma forma sobreviverem à pandemia, muitos tiveram que mudar de segmento, mas alguns seguiram firmes em seus negócios. O cantor Higor Redivo também se reinventou através da internet. Este período de isolamento serviu para a evolução das suas produções musicais.

A artista plástica Lilian Guedes também utilizou a tecnologia a seu favor durante esse período. As vendas online têm crescido muito nos últimos tempos, principalmente durante a crise sanitária que vivemos. As feiras de rua foram prejudicadas durante esse período e esse novo método de chegar aos clientes acaba trazendo mais segurança aos artistas e ao consumidor. A reportagem de Eduardo Pereira conta a história desses dois personagens que utilizaram este período para criar novidades.

Reportagem em vídeo

Repórter:Eduardo Pereira

Edição: Estér Martins

Produção: Fhillype Costa

Reportagem em áudio

Repórter: Kamila Melo

Produção: Higor Stork

Edição: Jean Domiciano

Reportagem de texto

Repórter: William Andrades

Imagens: Amanda Pase

Edição: Maria Luiza Inácio

Editor Geral: Vinícius Barbosa