A vida em tempos de isolamento social

Uma das principais recomendações das autoridades de saúde durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) é o isolamento social. O objetivo da medida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é minimizar a velocidade de transmissão do vírus, que causa a doença, e assim evitar que os serviços de atendimento médico fiquem sobrecarregados. Com isso, milhões de pessoas ao redor do mundo passaram a ter que lidar com sentimentos desafiadores como a angústia, o medo e a incerteza durante esse período.

Diversos profissionais estão em casa. Entretanto, muitos outros estão na linha de frente ou trabalhando para garantir necessidades básicas da população. Médicos, enfermeiros, operadores de caixa, farmacêuticos e demais profissionais arriscam suas vidas diariamente para garantir o devido atendimento àqueles que necessitam. Mas todas essas pessoas não estão isentas de outras doenças que podem ser adquiridas como consequência do isolamento social: a depressão e ansiedade.

Como lidar com depressão e ansiedade em tempos de coronavírus?

Dados da OMS apontam que 5,8% dos brasileiros, cerca de 12 milhões de pessoas, sofrem de depressão. É a maior taxa da América Latina e a segunda maior das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos. Estima-se que entre 20% e 25% da população teve, tem ou terá depressão, sendo essa a doença psiquiátrica com maior prevalência no Brasil.

Em seguida, aparece a ansiedade, que afeta 9,3% dos brasileiros, cerca de 19,4 milhões, e faz com que o Brasil ocupe o primeiro lugar da lista de países mais ansiosos do mundo. O suicídio é a terceira principal causa externa de mortes no Brasil, atrás de acidentes e agressões, com 12,5 mil casos em 2017, segundo o Ministério da Saúde. Em relação ao ano anterior, o aumento foi de 16,8%.

Para a psicóloga Claudia Fernandes, o Brasil está passando por um momento muito delicado. “A chegada do COVID-19 nos tirou tudo que tínhamos planejado, a rotina diária, o trabalho, vida social, mas principalmente o contato afetivo. O futuro se torna incerto demais. Toda esta situação tem o poder afetar a saúde mental das pessoas, aumentando os níveis de ansiedade, pois fatores desconhecidos e incertos fazem com que todos se sintam inseguros, principalmente em casos como esse, de nível mundial”, explica.

E para quem faz tratamentos específicos para depressão e ansiedade o isolamento pode ser um agravante. Assim, psicólogos e psicanalistas, além de realizarem sessões de terapia virtualmente – seja por vídeo chamada ou simples mensagens de texto – recomendam aos seus pacientes que busquem suas próprias formas de prazer dentro de casa. 

Izabela Reiser é bióloga e faz tratamento psicológico há dois anos. Antes da pandemia, trabalhava em um laboratório com uma rotina estabelecida que incluía aulas de pós-graduação, academia e momentos de lazer com amigos e colegas de trabalho. Com a chegada do novo coronavírus e a determinação de isolamento social, ela estabeleceu uma rotina que inclui ler notícias sobre o COVID-19, apenas uma vez por dia. “Eu tento não focar muito no assunto. Acabei combinando com os meus familiares de não falar muito sobre isso. E nesse tempo livre procuro ler, ver filmes e focar nos serviços de casa”, conta.

“É normal a ansiedade aflorar em uma situação de isolamento social durante a pandemia, mas é importante não criar motivos para pânico. O momento é também um convite para analisarmos o que realmente tem valor em nossas vidas e o tamanho da importância que são a nossa saúde e as nossas relações”, diz a psicóloga.

Uma nova rotina para os idosos

Um estudo do Centro para a Prevenção e Combate a Doenças da China analisou casos no país, tomando exemplos do mês de fevereiro, e identificou que a taxa de mortalidade avança conforme a idade. Enquanto entre 0 e 49 anos ela não passa de 1%, entre 50 e 59 fica em 1,3%, entre 60 e 69 vai para 3,6%, entre 70 e 79 anos sobe para 8% e acima dos 80 chega a 14,8%.

Os idosos e pacientes de doenças crônicas representam o público que causa maior preocupação com a pandemia do novo coronavírus. Isso porque a baixa imunidade faz dessas pessoas mais vulneráveis à ação do vírus e a complicações decorrentes dele, como síndromes respiratórias agudas graves.

A comerciante aposentada Maria Helena Cardoso, de 67 anos, trata há um ano a depressão e reclama da situação. “Muito difícil, os médicos pedem para evitar lugares fechados e com aglomerações, mas como vou fazer as compras do mês? E a feira? A gente está acostumada com a rotina e fazer tudo sozinha, agora vem o vírus e tira isso da gente, é difícil ser velho”, lamenta.

Convencer os idosos a ficar no isolamento em época de pandemia tem sido uma tarefa árdua para muitas famílias. “Nesse momento os familiares devem agir com clareza. Nada deve ser “escondido” ou “infantilizado” para este idoso. Deve-se usar do apelo emocional e usar palavras que “convençam” os idosos que eles são importantes para o familiar e que este está preocupado com sua saúde”, destaca a psicóloga, Roberta Cipriano.

De acordo com a família, Maria sempre foi muito independente, gosta de estar sempre atualizada das promoções no mercado, conhece todas as barraquinhas da feira e os feirantes pelo nome, tem sempre os netos em volta. “É uma situação complicada para ela. No começo ela não aceitou bem, disse que o governo não mandava nela e que ia comprar tomate, mas sentamos e explicamos a real situação. No final o medo de ficar longe dos netos para sempre a sossegou em casa”, brinca o filho mais velho de Maria Helena, Augusto Cardoso.

Os desafios na educação

Foto: Sarah Hilgert.

O coronavírus mudou a rotina de muitas pessoas em todas as idades. Manoela Pereira trabalha como psicóloga nas horas vagas. Como ela mesma diz, sua principal função é ser mãe dos seus trigêmeos autistas de 4 anos de idade. “Está sendo algo bem difícil. As crianças precisam de rotina e dentro do autismo a rotina é algo muito mais importante”, relata a mãe.

Assim como Manoela, a professora de inglês Stefani Hemkemeir e a diretora Lisandra Buss enfrentam desafios para continuar as atividades escolares e utilizam as redes sociais para realizar as aulas e dinâmicas com os pequenos. Ferramentas como o WhatsApp e Skype tornaram-se fundamentais para o desenvolvimento estudantil em tempos de quarentena.

Solidariedade em meio à pandemia

A solidariedade se faz presente por diversos meios. Neste vídeo você acompanha relatos de quem decidiu explorar o melhor de si durante o isolamento social.

O momento em que vivemos é difícil e teremos de superá-lo juntos. Iniciativas como a da voluntária Sibelle, do casal Katiane e Tacio e dos artistas catarinenses do projeto Sarau Live SC demonstram o que o ser humano tem de melhor: o amor ao próximo. Esse período em isolamento social é triste e dolorido para muitas pessoas, mas nos mostra que é impossível vivermos em um mundo onde cada um cuida de si sem olhar para o outro.

As redes sociais tornaram-se essenciais para demonstrar apoio e exercer a solidariedade enquanto devemos manter distancia física. Pelo meio digital, podemos observar pessoas motivando umas as outras, seja por lives no Instagram ou mensagens no WhatsApp. É uma conexão como vista antes, mas desta vez feita de forma especial.

O mundo parou e mudou a rotina de todos. O isolamento despertou aquilo que nunca deveria deixar de existir entre nós, a solidariedade entre amigos, vizinhos e desconhecidos. De ir até ao mercado para quem não pode ir ou simplesmente promover entretenimento pela tela do celular. São pequenos gestos que fazem a diferença.

Precisamos nos proteger do vírus mas também proteger nossa saúde mental. Cuide do seu corpo e de sua mente. Ajude e não tenha vergonha de pedir ajuda. Mais do que nunca, podemos e devemos cuidar um dos outros. Juntos, cada um em sua casa, venceremos os problemas enfrentados.

Que possamos aprender com o isolamento e não deixar o medo tomar conta. A verdadeira pandemia é quando deixamos de amar e enxergar outro. Por hora, cabe a cada um de nós a construção de um amanhã melhor.

Créditos
Reportagem em vídeo
Repórter: Kauana Mulinari e Bruno Matos
Produção: Julia Zelindro
Edição: Kauana Mulinari

Reportagem em áudio
Repórter: Silvana Maurílio
Produção: Leonardo Costa
Edição: Bianca Selhorst

Reportagem de texto
Repórter: Maria Luiza do Nascimento
Imagens: Sarah Hilgert
Edição: Vinícius Pacheco

Editor Geral: Bruno Matos