Conquistei meu diploma de jornalista, e agora?

Dúvida de muitos recém-graduados é como ingressar no mercado de trabalho depois de terminar o curso.

Foto: Adobe Stock

Ser jornalista no Brasil

Nesta semana, no dia 7 de abril, foi comemorado o dia do jornalista no Brasil. Porém, você não precisa ser um repórter investigativo para descobrir que nos últimos anos, a situação não está fácil para os profissionais das notícias e dos fatos. A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) divulgou um relatório, no dia 11 de março de 2020, com números alarmantes para todos aqueles que trabalham com jornalismo no Brasil.

Segundo os dados, a imprensa nacional sofreu cerca de 11 mil ataques por dia nas redes sociais, apenas no ano de 2019. O relatório divulga um fato ainda mais preocupante: houve 56 casos de violência não-letal envolvendo, pelo menos, 78 profissionais da comunicação. É uma melhora em comparação a 2018, em que os números haviam sido piores, mas ainda são dados preocupantes, principalmente se contabilizarmos, como fez a Abert o fez em seu relatório, decisões judiciais envolvendo violações à liberdade de expressão, que em 2019 aumentaram 15,38% em relação a 2018.

Uma alternativa cada vez mais popular

Mesmo com esses casos graves no Brasil, um estudo recente feito no Reino Unido pela Universidade Oxford mostrou que a confiança ampla no jornalismo aumentou de 46% para 53%, em comparação com a pesquisa do ano anterior. Portanto, o jornalismo não está sendo extinto, mas apenas migrando para o mundo digital, e, em tempos de pandemia e desinformação generalizada, ele vem se mostrando cada vez mais necessitado de profissionais sérios e apaixonados pela área.

Voltando à pergunta do título, depois que o diploma é conquistado, como aquele que era um aluno pode se tornar um profissional da comunicação? Nosso repórter Jean Domiciano realizou uma matéria em áudio na qual conversou com dois jornalistas que nos contaram uma alternativa promissora.

Como ingressar nos meios tradicionais

Mesmo tendo migrado em parte para o mundo digital, um levantamento de dados do Censo da Educação Superior, realizado em 2018, mostrou que no Brasil temos 341 cursos de jornalismo (70 em instituições públicas e 271 nas privadas), 51.507 alunos matriculados e 9.110 formados por ano. É um número gigantesco de potenciais jornalistas para ficar limitado apenas às novas mídias.

Muitos desses jornalistas já conseguem sair de suas universidades com emprego em veículos de comunicação tradicionais, por meio de projetos de estágio e oportunidades que são sim difíceis, mas que existem e lhes apareceram enquanto estavam cursando. É o caso dos dois primeiros entrevistados da nossa reportagem de vídeo, realizada pela Amanda Pase.

Uma profissão necessária e em expansão

O leque de oportunidades oferecidas no jornalismo atualmente é maior do que há 15 anos, devido à expansão da internet e redes sociais. Muitas profissões que não existiam começaram a surgir. Além das áreas tradicionais, existe a possibilidade profissões como social media, blogueiro, youtuber, jornalista digital, criador de conteúdo para web e diversas outras funções profissionais que foram criadas com a evolução da tecnologia, e acabaram ampliando as oportunidades de emprego para os recém-formados.

Formado em Jornalismo e proprietário da Agência Wolfi, uma agência de marketing com foco em conteúdo e performance para e-commerce, Fernando Silva fala que, apesar de não atuar mais em uma área tradicional de jornalismo, sua formação foi necessária para o seu sucesso profissional.

“Hoje não atuo diretamente na área, mas uso da minha experiência em comunicação dentro da minha própria empresa. Eu uso as técnicas do jornalismo absolutamente todos os dias dentro da agência de marketing e em qualquer função que eu precise realizar na empresa. Meu campo de atuação ainda é a comunicação”, completou.

De qualquer forma, no digital ou tradicional, o jornalismo mantém a essência de ser importante para a sociedade, como explica o jornalista Ildo Silva: “Eu, pessoalmente, sou míope. E para isso tem tratamento. Uso óculos de grau. Comparo este uso de equipamento a óculos, a função do jornalismo para a sociedade. Devemos ter a capacidade e a qualidade de fazer a sociedade enxergar a si própria com mais clareza e limpidez”, relata ele.

Se por um lado muitos jornais, revistas, rádios, emissoras e empresas de comunicação fecharam as portas ou diminuíram sua equipe nos últimos anos, como a Buzzfeed News e Vice, por outro lado temos o aumento de áreas de atuação envolvendo a internet, marketing e redes sociais.

“A partir do terceiro semestre da faculdade eu comecei a fazer estágios em diversos locais. De lá para cá, eu tive inúmeras oportunidades de trabalho. Nunca fiquei sem estar empregado ou com projetos que pagavam no mínimo o mesmo que o piso de jornalista”, comenta Fernando.

O jornalista também pode trabalhar como freelancer, um ramo que cresceu muito recentemente na comunicação social, tanto para os jornalistas quanto para os publicitários. Trabalhar de forma autônoma como redator, repórter, assessor, designer e social media por demanda e, escolhendo os seus trabalhos, até mesmo de casa, é possível.

Os trabalhos de freelancer podem ser encontrados em sites como a 99Freelas, freelancer.com.br, Freelancer Select e freelancer.com, que oferecem oportunidades para diversas áreas da comunicação. Em algumas plataformas os “freelas”, como são conhecidos, podem ser requeridos e contratados de qualquer lugar do mundo.

“A dificuldade e o prazer da profissão está justamente na atualização constante. É preciso estar sempre aprendendo mais e mais, sobre inúmeros assuntos, para que seja possível fazer as perguntas certas na busca por respostas e construção de boas matérias”, diz Fernando.

Foto: Higor Stork

O meio acadêmico como profissão

Além dos caminhos que já citamos, existe também a possibilidade do jornalismo acadêmico. No Brasil, de acordo com o Educa Mais Brasil estão entre as pós-graduações mais procuradas para jornalismo: Jornalismo Digital; Jornalismo Esportivo; Jornalismo Político e Assessoria de Comunicação. Tanto uma pós-graduação quanto um mestrado ou um doutorado não serve apenas como um incremento no currículo, mas sim um caminho possível para aqueles que amam fazer pesquisa e estudar.

Ao realizar o seu Trabalho de Conclusão de Curso o jornalista já vai ter contato com o que é ser um pesquisador acadêmico. Caso se destaque e tenha interesse, pode acontecer de algum dos professores, seja o orientador ou não, incentivá-lo e encaminhá-lo para levar adiante seu projeto de pesquisa, transformando-o em um mestrado e quem sabe até em um doutorado.

Porém, é uma realidade um tanto inacessível a de se tornar um pesquisador no Brasil. O HypeScience divulgou recentemente um mapa-múndi baseado na produção científica de cada país, e a desigualdade entre países da Europa e América do Norte para os países da América Latina é grande. Grande parte dos trabalhos científicos no Brasil são realizados em universidades públicas que a cada ano recebem menos e menos verba. Em 2019 o governo federal bloqueou 30% da verba para despesas discricionárias, que incluem investimento em pesquisas.

Muitos mestres ou doutores em jornalismo acabam por se tornar professores ou usam o título para garantir oportunidades melhores no mercado de trabalho, como foi o caso de Fernando:

“Todas as vezes que pude ir para um lugar melhor, eu fui e consegui evoluir de repórter para editor, minha pós-graduação de Jornalismo Para Editores contribuiu para isso. É preciso estar sempre aprendendo mais e mais, sobre inúmeros assuntos para que seja possível fazer as perguntas certas na busca por respostas e construção de boas matérias”.

Foto: Higor Stork

Editor geral: William Andrades

Áudio:
Editor: Kamila Melo
Repórter: Jean Domiciano
Produtor: Maria Luiza Inácio

Vídeo:
Repórter: Amanda Pase
Editor: Vinícius Barbosa
Produtor: Eduardo Mota

Texto:
Editor: Fhillype Costa
Fotógrafo: Higor Stork
Repórter: Estér Martins