Páscoa: cultura, tradições e formas de se reinventar durante a pandemia

Por Laura Remesso

Prestes a chegar na data mais importante do calendário cristão, a Páscoa, ainda vivemos rodeados de muita incerteza. É Semana Santa e o cenário, pela primeira vez, não é de igrejas lotadas. Os fiéis não estão podendo mais acompanhar, pessoalmente, várias cerimônias deste momento tão importante para a Igreja Católica. Este ano, os padres celebram as missas, fisicamente, sozinhos. A reza é distante e ecoa em cada canto do templo cristão, mas nunca esteve tão presente e forte nos corações.

Força essa que auxilia, mesmo aos 78 anos, dona Ondina Maria de Souza a ajoelhar e continuar trilhando o caminho da fé. Como ela mesma conta, nascida e crescida dentro da igreja, este ano, a quaresma se tornou difícil. “Toda páscoa a gente estava lá, a quaresma toda. E agora a gente só fica trancada dentro de casa. É muito triste, muito sentida mesmo, tenho chorado. Agora participo da minha casa, assistindo todas as missas, a via sacra e fazendo as minhas orações. Vivendo o sentido da páscoa, no máximo que a gente pode fazer de longe”.  

Seja pela televisão ou internet, os líderes religiosos das comunidades e igrejas têm encontrado métodos para se adaptar a este período que o mundo passa sem perder a conexão com Deus. “Nós, respeitando tudo aquilo que a Vigilância Sanitária e a Secretaria de Saúde nos pedem, tivemos que nos reinventar. Estamos oferecendo para todo o público as transmissões pelas nossas redes sociais, a oportunidade de participarem virtualmente das celebrações e fazer essa experiência, de experimentar o amor de jesus, a partir da verdadeira igreja que somos nós”, explica padre Elinton Costa da Comunidade Bethânia da cidade de São João Batista.

O verdadeiro sentido

A Páscoa é o momento de os fiéis relembrarem a crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. É sempre um momento profundo na vida dos que seguem a religião. Um momento de parar e analisar os detalhes da vida. Ressignificar a essência das coisas e praticar o caminho do perdão. “Viver a páscoa é sempre desafiador, pois nós somos chamados a ter uma intimidade maior com o Senhor, que assumiu sobre si os nossos pecados e por livre e espontânea vontade aderiu viver um amor que entrega tudo”, cita padre Elinton.

De acordo com o padre, apesar do momento que passamos, ela nunca fez tanto sentido para os católicos. “Olha que bonito é vir o tempo da quarentena logo na quaresma. Isso não foi coincidência, foi providência. Porque nunca se viveu a quaresma com tanta intensidade como se foi vivida nesse tempo. É um tempo para refletir nosso jeito de ser, nossos valores, onde nós estamos investindo nossa vida e o que realmente vale a pena viver”.

Neste momento delicado e repleto de emoção, o sacerdote ainda deixa um recado para o Tríduo Pascal. “Nós somos convidados a refletir a partir desse amor doado por Deus a cada um de nós e o jeito que nós estamos vivendo buscando também expressar esse amor. Por isso, a quinta-feira santa vem dizer: amemo-nos uns aos outros como eu vos amei. Eu vos dei o exemplo, lavando os pés uns dos outros, que significa a humildade e humilhação para acolher o outro do jeito como ele é”, enfatiza.

Ovos de chocolate

Em meio a toda cultura religiosa, há também a doce tradição dos ovos de páscoa, que também faz parte da cultura brasileira. Com o ápice da pandemia no Brasil, é cada vez mais difícil sair de casa, mas como fica a tradição das crianças caçarem os ovinhos, já que ir ao mercado é uma tarefa arriscada? De acordo com uma pesquisa feita pela empresa Google, sete em cada 10 brasileiros irão mudar os planos para a data comemorativa.

Nesse ano, a compra de ovos industrializados não é a primeira – nem a única – opção dos consumidores | Foto: Laura Remesso

A pesquisa também apontou que a maioria das pessoas tem o costume de comprar ovos de chocolate. Todavia, neste ano, até a maneira de realizar a compra também vai mudar para manter o distanciamento social, recomendado em períodos de pandemia. Ainda segundo o Google, desses mil entrevistados, cerca de 38% vai comprar de outra forma, trocando o presencial pelo virtual.

Contrariando as estatísticas, na casa da Alessandra de Souza, há alguns anos os ovos não fazem mais parte da páscoa, mas por solidariedade, este ano eles vão retomar a tradição. Para ajudar os pequenos negócios e fazer a alegria da sua filha de nove anos, a tecnóloga em logística já fez o pedido de ovos caseiros de uma conhecida. “Os preços aumentaram muito durante alguns anos, não tínhamos como gastar tanto em um ovo, aí trocamos por barras de chocolate. Mas esse ano, nesse período que passamos, tem muita gente que só tem essa renda e se temos como ajudar, por que não?”, salienta.

Solidariedade de Alessandra, é um sentimento que aflora e se faz presente nos corações durante a Páscoa. Por meio de gestos assim, a jovem de 27 anos, Luciana Antunes, conseguiu faturar mais de 40% na produção caseira dos ovos de chocolate. Pelo segundo ano consecutivo, Luciana produz ovos e outros doces para vender, e viu um aumento nos pedidos deste ano. “Acho que o que me auxiliou neste aumento, foi o fato de ter uma corrente de pessoas incentivando a comprar de quem faz e não produtos industrializados. E pelo risco de sair de casa, como eu faço entrega, vejo que isso é uma vantagem também”.

Alternativa para recursos financeiros

Patrícia de Souza Francisco é decoradora de eventos e tem como hobbie produzir ovos de páscoa caseiros há seis anos. Com a chegada da pandemia, todos os próximos eventos que possuía foram cancelados, por conta da limitação estabelecida pelo decreto estadual. “Eu não iria fazer os ovos esse ano, porque tinha muita decoração para essa época. Não divulguei nem nada. Depois, como estamos em uma crise, nem passou na minha ideia produzir, porque as pessoas não iam gastar dinheiro. Mas muita gente veio me perguntar e foi aí que eu retomei a produção devagar”.

“Comecei nos últimos dias”, explica a empreendedora. Logo que divulgou, a antiga clientela começou os pedidos e uma mídia orgânica foi gerada. Assim, Patrícia acha que fez a escolha certa de retomar a produção dos ovos. “Agora, que eu comecei a divulgar mais, deu um salto e eu já estou com a mesma demanda do ano passado em duas semanas. Então, provavelmente vai superar o ano passado. O meu problema foram as decorações. Nesse sentido, eu fui prejudicada, mas eu achei esse caminho [dos ovos caseiros]”, complementa.

Produção: cuidados redobrados

Por estar desempregada, o aumento nas vendas triplicou a felicidade de Luciana. Mas com a felicidade, também vieram as preocupações, pois para comprar os ingredientes de todos os pedidos teve que contar com os serviços tele entrega dos fornecedores. “Não repassei esse custo nos meus produtos, porque também tive que cobrar a entrega, já que eu entrego de carro. Foi algo que não tive durante o ano passado”, comenta Luciana.

Preocupações que Patrícia também sentiu na pele. A rotina dos últimos anos foi afetada, pois, agora, o sair de casa oferece perigo. “Ano passado eu dava para as pessoas a opção de entrega com ou sem embalagem. Esse ano, eu dei a embalagem para ser mais seguro. Logo que os produtos chegam do mercado a gente higieniza tudo. E este ano também troquei a forma de compra, que foi por transportadora. Fiz esse investimento pensado em não ter que sair muito para comprar as coisas”, relata ela.

A higienização, que sempre foi uma medida rigorosa nas produções alimentícias, teve que ser ainda mais efetiva. Passo a passo que Luciana enfatiza que precisa muita atenção. “Com relação às formas de contágio, como por exemplo, eu busco passar álcool em todas as embalagens e embalar elas individualmente”. Na casa da Patrícia as coisas não estão sendo diferentes. “Estamos sempre oferecendo a opção de pagamento em cartão. Quando é em dinheiro e tem troco, eu já deixo dentro de um envelope. Então tem todo um cuidado, né? A gente tem a responsabilidade de que tem muita gente envolvida”.

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