Da preservação à sobrevivência: a importância da água para Tubarão e região

O Dia Mundial da Água, comemorado anualmente em 22 de março, foi instituído pela ONU em 1993 e tem como objetivo proporcionar reflexões sobre a importância, uso e preservação deste recurso tão necessário para a sobrevivência.

O nome Rio Tubarão deriva da denominação ‘Tubá-nharô’, criada pelos índios. Em tupi-guarani, o termo significa ‘pai bravo’.  (Foto: Bárbara Dias)

“Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão; águas que banham aldeias e matam a sede da população”. O trecho da famosa canção Planeta Água de Guilherme Arantes reflete apenas algumas das mais essenciais funções desse recurso. Não apenas um dos elementos mais vitais para a sobrevivência humana, a água também está presente em todo o nosso cotidiano, desde elemento básico para higiene e limpeza até seu uso na fabricação têxtil. A falta desse recurso impossibilitaria a vida na Terra.

Apesar disso, a água vem sendo cada vez menos preservada. Um relatório divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica, no dia 22 de março desse ano, mostrou que, em uma análise feita nos rios brasileiros nos períodos de 2020 a 2021, apenas 10% estão em boas condições de qualidade. Um dos principais causadores desse problema é quem mais precisa dela para sua sobrevivência, os seres humanos.

SEM A PRESERVAÇÃO DA ÁGUA, QUE CONSEQUENTEMENTE RESULTA NA FALTA DELA, PODE ACARRETAR MUITOS PROBLEMAS. VEJA O VÍDEO ABAIXO:

O presidente da Fundação do Meio Ambiente de Tubarão, Júlio César Rodrigues, afirma que a bacia hidrográfica do Rio Tubarão foi impactada por uma série de atividades humanas ao longo dos anos. “A exploração de carvão mineral, que ocorreu por décadas na região, sem que fossem tomados os devidos cuidados com as questões ambientais, contribuíram para o aumento da acidez de diversos afluentes e do próprio rio. A suinocultura promoveu o lançamento de dejetos na malha hídrica, que associado ao esgotamento sanitário promovido pela ocupação humana, contribuiu para o lançamento excessivo de matéria orgânica no Rio Tubarão, aumentando a poluição”, destaca o presidente.

O Rio Tubarão

Cortando a Cidade Azul, o Rio Tubarão é a principal fonte de abastecimento de água dos municípios de Tubarão e Capivari de Baixo. Responsável pelo consumo de aproximadamente 130 mil habitantes, é de grande importância para a dinâmica do ecossistema da região. “O Rio Tubarão tem suas principais nascentes na Serra Geral, na região do município de Lauro Muller, e possui dois principais afluentes pela sua margem esquerda, os rios Braço do Norte e Capivari. Assim a área de drenagem da bacia hidrográfica do Rio Tubarão é a mais extensa da região Sul Catarinense”, explica Júlio César Rodrigues.

Essa rede fluvial faz com que as causas e consequências dos prejuízos ambientais que provocam a má qualidade nas águas do rio se ampliem para além da cidade de Tubarão. Francisco Beltrame, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar, exemplifica essa relação entre o rio e sua hidrografia. “As bacias da região, pelas atividades ou não cuidado com as atividades, acabam afetando os cursos das águas. Isso ramifica e acaba chegando ao Rio Tubarão e ao Complexo Lagunar, que é outro ponto de concentração ou de finalização da poluição das atividades da nossa região”.

Poluição: consequências para além das águas

Até 2019, a Colônia e o Sindicato dos pescadores de Laguna registravam, aproximadamente 4.100 pescadores artesanais em atividade. (Foto: PML/Divulgação)

Reinaldo Florentino, de 57 anos, é pescador artesanal e profissional em Laguna, e vive de perto as consequências que a poluição nas águas causa. “A nossa pesca vem diminuindo gradativamente ano após ano em virtude da poluição do Complexo Lagunar. Quando há poluição em excesso, o boto e o peixe vêm à tona na água e colocam a boca para fora, tentando pegar oxigênio, chega uma hora que eles morrem”, diz o pescador.

Ele conta que a poluição é visível, através de bolsas plásticas flutuando, a água se tornando mais escura e pouco oxigenada, fatores que dificultam a migração dos peixes e trazem diversos prejuízos para quem vive da pesca. Os prejuízos não são apenas econômicos, já que a poluição também pode contaminar os peixes, tornando seu consumo prejudicial à saúde. “O peixe não apresenta ação, nem tenta escapar da rede. Eles ficam pouco escamados e a carne dele fica mole por dentro. Algumas pessoas comem essa carne, mas não é aconselhável”, exemplifica Reinaldo. O pescador ainda lembra que em Laguna não há esgoto 100% tratado e que em algumas praias é possível observar o esgoto desembocando no mar a céu aberto.

A oceanógrafa Giseli Aguiar explica as complicações que situações como essa podem acarretar ao meio marinho. “Esgoto é matéria orgânica. Então nossas fezes, nossa urina é comida, nutriente para os organismos que estão na água. Porém é uma matéria orgânica contaminada, porque na nossa urina e nas nossas fezes, a gente libera poluentes persistentes. Quando isso entra no ambiente os organismos que estão ali vão se alimentando. E aí as algas marinhas, as bactérias, vão crescer, se reproduzir muito e logo vão morrer, porque elas têm o ciclo de vida mais curto. Então com esse processo, elas tiram o oxigênio da água. Com baixa oxigenação, os peixes e outros organismos que moram ali vão acabar morrendo”.

Segundo Giseli, a cadeia alimentar funciona da seguinte forma: os organismos menores, que se alimentam da matéria orgânica proveniente do esgoto, vão ser comidos por peixes maiores, que por sua vez podem ser consumidos por seres humanos. Esses são apenas alguns dos exemplos de como a água contaminada pode trazer diversos malefícios a saúde. Júlio César Rodrigues, presidente da Fundação do Meio Ambiente, relembra que o descarte inadequado do esgoto em rios, além de chegar ao mar e provocar todo o processo acima, também “se torna um reduto de doenças transmitidas por via hídrica, como infecções gastrointestinais, cólera e hepatites”.

ALÉM DOS ANIMAIS, A ÁGUA TAMBÉM É DE EXTREMA IMPORTÂNCIA PARA O CORPO HUMANO. CONFIRA ABAIXO:

Ações para preservar as águas e melhorar a situação do Rio Tubarão

Há nove anos, a Tubarão Saneamento cuida dos sistemas de água e esgoto na Cidade Azul. (Foto: Tubarão Saneamento/Divulgação)

Tendo em vista que um dos maiores agentes de poluição e contaminação das águas é o destino indevido do esgoto, a Tubarão Saneamento, empresa responsável pela coleta e tratamento da rede sanitária na cidade, promove algumas ações para, além de melhorar seus serviços, conscientizar a população sobre a preservação do Rio Tubarão e o meio ambiente que o cerca. “A TS vem promovendo ações de educação ambiental em escolas públicas do município, além de receber escolas na Estação de Tratamento de Água para visitação e aprendizado do processo de tratamento de água”, comenta Leonardo Figueiredo, Coordenador de Investimentos da empresa.

A Fundação do Meio Ambiente também vem tomando ações que visam a melhora da bacia hidrográfica do Rio Tubarão, como explica seu presidente, Júlio César Rodrigues: “Pela ação dos órgãos ambientais através dos procedimentos de licenciamento ambiental das atividades potencialmente causadoras de degradação do meio ambiente, que impõe a operação de tais atividades medidas condicionantes para que possam trabalhar levando em consideração as normas ambientais vigentes, bem como ao uso adequado de técnicas e equipamentos com intuito de minimizar os impactos adversos gerados pelas atividades econômicas”. Assim, Júlio afirma poder vislumbrar, num futuro próximo, uma significativa melhoria na qualidade das águas dos principais mananciais existentes em Tubarão e nas cidades circunvizinhas.

Texto: Lara Silva, Beatriz Godoy e Bárbara Dias.

Áudio: Luiza Hennemann, Geovana Biudes e Maria Júlia Machado.

Vídeo: Emanuella Alves, Laura Remesso e Ana Luiza Cardoso.

Editor Geral: Josilaine Gonçalves