Marielle, O Documentário: além da vida

Por Ana Luiza Cardoso

Às vésperas do assassinato de Marielle completar dois anos, a Globo Play lança o “Marielle, O Documentário”. Dividido em seis episódios, o documentário surge como uma nova maneira de manter viva a chama por justiça que iniciou combustão desde o crime cometido contra ela e seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. 

Dirigido por Caio Cavechini, o documentário, em todos os episódios, conversa com quem assiste. Não na intenção de criar comunicação de fato, mas busca, nas entrelinhas, emocionar e manter viva a revolta que a morte da vereadora ainda causa. Logo de início, percebe-se a intenção de comover. A vida de Marielle e de Anderson é contada pelas pessoas com quem mais se importavam - fato comprovado pela exposição de áudios trocados pelas vítimas e seus familiares. A intimidade cria o laço entre a história e quem assiste.

Mesmo com a intenção central de documentar a história antes, durante e depois da tragédia, o documentário não foge às tentativas de causar comoção e, sobretudo, identificação. Ele faz com que o espectador enxergue àquelas realidades. Tanto a da mulher negra, de origem pobre, vereadora e bissexual quanto do homem gentil que não pôde acompanhar a infância complicada do filho  –  que exige cuidados especiais. Áudios trocados entre as vítimas e familiares, porta-retratos, álbuns de infância, vídeos antigos, depoimentos especiais e íntimos, entre outros, são ferramentas claras que evidenciam a comoção que é proposta. A estrutura do documentário não propõe só vivenciar uma investigação que ainda não teve fim, mas vidas que tiveram fim e outras que foram totalmente modificadas.

Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro para a Legislatura 2017-2020, durante a eleição municipal de 2016, com a quinta maior votação | Foto: Agência Brasil

Em seguida, o documentário revela seu caráter “policial”. Detalha todos os passos de uma investigação minuciosa. Expõe linhas de apuração - tanto do crime, por parte dos meios policiais, quanto de informação, por parte dos jornalistas. Nesse contexto, a produção amarra uma só questão: a dificuldade de solucionar um caso tão importante. De acordo com a repercussão acerca da tragédia, resolvê-la traria uma sensação de que a justiça pode ser feita  - mesmo que uma briga entre silenciados e silenciadores seja travada. Muitas questões são levantadas, mas duas principais ecoam:

Quem mandou matar Marielle?

E por quê?

A pergunta segue repercutindo do primeiro ao último episódio. No fim, não há resposta.

E por não haver resposta, outra pergunta, feita por Marielle dias antes de morrer, vem a tona nos segundos finais do último episódio:

Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?

A frase encerra o documentário, por outro lado não encerra o assunto. Pelo contrário, no fim das contas fica plantada a semente da questão. O documentário fala sobre Marielle, sobre o espaço que ocupou no meio em que estava inserida e no peso que teve sua morte, mas ele dá vez e voz para a luta que a vereadora carregou em vida. A luta para que minorias parassem de morrer. A luta que, se tivesse sido ganha, talvez pudesse ter impedido sua morte e a de tantos outros que foram antes e ainda irão depois dela.

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