Menstruação e Sustentabilidade

Quando falamos sobre sustentabilidade, logo vem à cabeça opções como reciclagem, diminuição do uso de canudos e plásticos, separar o lixo e assim por diante.  Algo tão natural como a menstruação, que ocorre todo mês por muitos anos durante a vida, também precisa ser pensado: de que forma estamos lidando com a menstruação? Simplesmente usar absorventes e descarta-los no lixo é a melhor maneira de nos sentirmos confortáveis com o nosso corpo e cuidarmos do meio ambiente?

Imagem 1 – Absorventes descartáveis – Polina Zimmerman

De acordo com o site da marca Korui, uma pessoa tem cerca de 450 ciclos menstruais durante a vida e assim, ao usar produtos descartáveis, gera 150kg de lixo no mundo, além de gastar entre seis e 10 mil reais em absorventes, são aproximadamente 10.000 absorventes por pessoa durante a vida, que vão demorar de 100 até 500 anos para de decompor. Além das questões sustentáveis e econômicas, os absorventes de algodão são cheios de químicos e perfumes, que ao estarem em contato direto com a vulva, prejudicam a lubrificação natural e a flora vaginal da mulher, pois não permitem que a pele respire e causam a proliferação de bactérias, além de serem responsáveis por alergias e infecções em diversas mulheres. As opções mais conhecidas e sustentáveis são os coletores menstruais (ou copinhos), absorventes de tecido e calcinhas absorventes.

O coletor é um copinho de silicone hipoalergênico que encaixa no canal vaginal e fica lá dentro coletando o sangue. Por ser feito de silicone, ele não causa incômodo, diferente dos tampões que são feitos de algodão, gerando atrito com a parede do canal vaginal. O valor dele parece de início um pouco caro, variando entre R$50,00 a R$150,00, mas esse valor se paga em alguns meses no que seria gasto em pacotes de absorventes descartáveis. O copinho não é reciclável, para descartá-lo deve ser cortado em pedaços bem pequenos para ter uma decomposição mais rápida e jogado em lixo comum, mas o mesmo coletor pode ser usado por três até dez anos.

Imagem 2 – Coletor menstrual – Anna Shvets

Uma desvantagem do coletor é que nem todas as mulheres se adaptam, algumas devido à altura do colo de útero, geralmente aquelas que tem colo de útero baixo tem mais dificuldade, e outras por não se sentirem confortáveis com o ato de introduzir e retirar o coletor da vagina.

Outra dificuldade, mas que é a comum entre todas as opções não descartáveis, é o contato com o sangue. O coletor deve ser lavado, então para quem não consegue ver sangue ou simplesmente não gosta, as opções não descartáveis se tornam um pouco mais difíceis de se adaptar. A troca do coletor pode ser considerada uma desvantagem quando ter que ser feita fora de casa, no entanto, ele pode aguentar até 12 horas seguidas (ou até mais, dependendo do fluxo do sangue) no canal vaginal.

A vestibulanda Érica Côrrea Meurer, trocou os absorventes descartáveis pelo coletor e pelos absorventes de tecido:

“Eu comecei a ver postagens de colegas mostrando quantos quilos e mais quilos de lixo são produzidos durante uma vida ao utilizar os descartáveis, fiquei assustada, porque nunca tinha parado para fazer essa reflexão. Vi também que são opções muito mais higiênicas, outra coisa que eu nem tinha ideia”.

A Érica trocou as opções descartáveis há quase um ano e, hoje, intercala o coletor com os absorventes de tecido. Entre as maiores diferenças que ela percebeu, Érica cita que os absorventes de tecido são muito mais confortáveis e tanto esses quanto os coletores não deixam um cheiro desagradável como os descartáveis costumam deixar. A vestibulanda afirma que a adaptação foi bem tranquila, já no primeiro dia tanto o coletor quando o absorvente de tecido deu certo. Ela utiliza três absorventes por ciclo, mas recomenda que, quem costuma sair mais de casa, tenha mais alguns. Além disso, ela mesma fez alguns de seus absorventes:

“Tenho dois absorventes de pano comprados de marca e um que eu mesma fiz, ficou bem bom! No fim uma amiga pediu para eu fazer um para ela e ela gostou bastante também. É super fácil, tem diversos vídeos na internet explicando maneiras diferentes de fazer.”

Quanto ao interesse em calcinhas menstruais, ela diz não ter tanto interesse:

“Ouço falarem melhor dos absorventes…, mas acho muito interessante a ideia de simplesmente tirar a calcinha usada e simplesmente por outra, sem precisar encaixar nada em nenhum lugar, bem prático!”.

Os absorventes de tecido são, sem dúvidas, a opção mais barata e de mais fácil adaptação. Os valores são aproximadamente entre R$15,00 a R$40 reais (a unidade), também é necessário ter em torno de três absorventes pela mesma questão de ter que lavar e esperar secar. A facilidade para trocar fora de casa é maior, basta tirar e guardar o usado em uma sacola impermeável para lavar depois. Os absorventes de pano suportam a quantidade de sangue, dependendo do modelo, de uma forma muito mais eficiente que aqueles absorventes noturnos descartáveis. Além disso, eles podem ser costurados em casa, como a Érica fez e a estudante de licenciatura em Física, Graziella Hartwig Parizotto, que utiliza e costura os próprios absorventes.

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“Quando eu tinha uns 12/13 anos eu usava os descartáveis, mas aí minha avó costurou um absorvente de pano para mim e desde então só uso eles. Eu costuro meus próprios absorventes, faço com três camadas de pano e nunca vazou. Além disso, sempre tenho um mais reforçado que eu uso para dormir.”

A Graziella também acha os absorventes de tecido mais confortáveis e mais seguros, sem aquela sensação de ficarem “sambando” na calcinha. Com os absorventes descartáveis ela costumava ter alergias, porque aqueles não deixavam a pele respirar e, com os de pano, não teve mais alergias. Em relação à adaptação, ela diz que foi bem fácil e, por ter o fluxo bem intenso, precisa de cinco absorventes por ciclo. Apesar de não ter experimentado as outras opções reutilizáveis, ela tem curiosidade pelos coletores.

E por último, as calcinhas absorventes, que têm como vantagem a segurança e conforto, principalmente para quem não se adapta ao coletor e não gosta da sensação de ter algo na calcinha. No entanto, o preço delas são mais salgados, uma calcinha absorvente custa em média de 60,00 a 120,00 reais, é um valor próximo do preço do coletor, mas para o uso de calcinhas menstruais é indicado ter no mínimo três. Uma você usará, outra estará secando e outra você terá para trocar. As calcinhas podem ser um problema para as mulheres que tem o fluxo muito intenso, pois não seguram tanta quantidade de sangue por muito tempo. Além disso, é a opção mais difícil de ser trocada fora de casa, tendo que levar outra calcinha e uma sacola impermeável na bolsa para colocar a usada.

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Os métodos não descartáveis são mais sustentáveis para o meio ambiente e mais higiênicos e saudáveis para as mulheres. Repensar a maneira que lidamos com a menstruação é repensar como tratamos o planeta, são quilos de lixo poupados todo mês a partir de atitudes simples como trocar aquele absorvente do mercado por uma opção reutilizável, que não vai ser jogada fora tão cedo e que terá um processo de decomposição muito mais rápido.

Imagem destaque: Vanessa Ramirez

Texto por: Maria Luiza Della Rocca Sulzbacher