Esperança em meio ao caos: mesmo com restrições, atendimentos médicos especializados são realizados em Tubarão

Fachada do principal centro médico da cidade de Tubarão, o Hospital Nossa Senhora da Conceição
(Foto: reprodução do HNSC)

O rastreamento e tratamento do câncer, um dos principais problemas de saúde pública no mundo, não pode esperar. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 625 mil casos da doença a cada ano do triênio 2020/2022. Só em 2020, ano em que a pandemia da COVID-19 se consolidou, aproximadamente 522 mil novos casos foram registrados no país. 

A professora de artes, Simoni Citadin, recebeu o diagnóstico de câncer em março deste ano, pela equipe oncológica do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Tubarão. Hoje, aos 49 anos, recebe tratamento especializado contra um carcinoma invasivo de grau 3, o tipo mais comum de câncer de mama. “A minha primeira quimioterapia foi no dia 24 de março. Farei oito sessões, uma a cada 21 dias, e comecei com a vermelha [uma das espécies do tratamento]”, comenta. 


Dias após sua primeira sessão, Simone corta
 o cabelo e diz ter decidido manter um sorriso no
 rosto e alto astral para enfrentar a situação. 
(Foto: arquivo pessoal).

Simoni é reconhecida entre seus parentes e amigos pelo alto-astral e tem na alegria a chave para enfrentar esse processo. “Manter o astral alto, manter o otimismo, manter o sorriso, faz com que a nossa recuperação e o nosso tratamento seja mais fácil de ser encarado. Muitas pessoas me falaram isso e eu tenho certeza que é com esse meu otimismo que eu vou passar por tudo isso de maneira mais leve”, afirma a professora de educação infantil. 

Mesmo com a pandemia, a paciente do HNSC revela que o tratamento recebido segue com as consultas, exames e procedimentos ocorrendo normalmente, apesar das medidas de enfrentamento à Covid-19. “Todo doente oncológico tem direito a um acompanhante, porém, durante a quimioterapia a minha acompanhante fica na sala ao lado por causa da pandemia”, explica. Simone ainda revela a importância do acolhimento que recebeu em sua primeira sessão de quimioterapia. “As enfermeiras são incríveis e têm uma sensibilidade enorme. Ficaram o tempo todo ali do meu lado, me apoiando. São realmente muito sensíveis à nossa dor nesse momento”, acrescentou.

Os cuidados devem ser redobrados, principalmente com as grávidas. Confira abaixo:

O desafio de fazer medicina durante a pandemia da Covid-19

Os tempos atuais têm sido desafiadores para pacientes com câncer e para aqueles que buscam o diagnóstico da doença. Entre março e maio de 2020, segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Patologia e Cirurgia Oncológica, mais de 50 mil brasileiros deixaram de ser diagnosticados em função da pandemia de Covid-19. Em Tubarão, município de Santa Catarina onde Simoni realiza seu tratamento, os dos pacientes, que já estavam diagnosticados, foram mantidos. 


   Dr. Kelio Silva, médico oncologista 
   do Hospital Nossa Senhora da Conceição, 
   em Tubarão. (Foto: arquivo pessoal).

De acordo com o oncologista clínico do Hospital Nossa da Senhora Conceição e da Clínica Pró-Vida de Tubarão, Kelio Silva, os pacientes do hospital que não estavam em tratamento e precisavam de acompanhamento foram atendidos remotamente. “A enfermeira do nosso setor faz o contato por telefone com os pacientes e a gente pega as informações para saber se eles estão clinicamente bem, se têm alguma queixa”, explicou o médico. Além dessa avaliação, os pacientes que tinham exames não deixaram de receber o atendimento. “A gente faz a avaliação desses exames, que são enviados remotamente ou deixados no setor, e se apresentar alguma alteração, o paciente é comunicado para comparecer ao nosso centro de oncologia”, acrescentou.

O cancelamento e a remarcação de consultas foram os dois problemas mais enfrentados pelos pacientes do setor, de acordo com o oncologista. A realização de cirurgias oncológicas também foi afetada, além da redução drástica no número de biópsias, procedimento utilizado para diagnóstico da doença. “Como nós temos vários pacientes que estão debilitados, que estão fazendo quimioterapia, que estão com a imunidade baixa, o cuidado é essencial. Por isso, nós fizemos diversas alterações, como remarcações, restrições de visitas, entre outros, a fim de proteger e cuidar desses pacientes”, salientou Kelio.

Max Alexandre Fortes Jorge, comunicador social da Prefeitura Municipal de Tubarão, experimentou as consequências desse cenário na pele. Após uma cirurgia de pedra na vesícula, em 2011, uma espécie de bolsa de tecido, chamada de Síndrome de Sump, se formou entre um dos cortes ocasionados pelo procedimento. Mais tarde, em 2019, recebeu também o diagnóstico de um lipoma (tumor benigno) anexo a essa bolsa. 

Para tratar a síndrome cirurgicamente e, consequentemente extrair o lipoma, que é um tumor benigno, Max precisaria diminuir em 70% o tamanho do lipoma por intermédio de um tratamento medicamentoso. “Esse tratamento foi dividido em seções e era administrado via intravenosa no setor de oncologia do HNSC”, explica.

           Foto: pexels.

Após algumas sessões, o jornalista teve seu tratamento interrompido em decorrência das medidas voltadas à prevenção contra o novo coronavírus. “Me atrapalha? É lógico que eu queria me livrar logo, porque esse ano eu estava disposto a terminar todas as sessões e partir para a cirurgia. Mas hoje, mesmo que eu queira, não vai adiantar, já que as cirurgias eletivas foram adiadas por tempo indeterminado e o hospital segue tomado pelos casos da Covid-19”, comenta. Enquanto aguarda, Max faz uso de um medicamento à base de corticoide para controlar os sintomas, que vão desde vômito a dor intensa.

O cuidado com a saúde

Não é segredo que a proliferação do novo coronavírus atingiu a vida de todos. Isolamento social e medo constante de contrair a doença são temas que seguem em alta enquanto a pandemia persiste. Os leitos lotados, a falta de insumos, os profissionais exaustos e a realocação de recursos, no entanto, também impactaram diretamente em outros âmbitos da saúde. Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) e pela Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), com 200 pessoas, revelou que a procura por acompanhamento de doenças, prevenção e cuidados com uma vida mais saudável teve uma queda. 

Este efeito também pôde ser observado no setor oncológico. Outra pesquisa, desta vez coordenada pela Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo (SBU-SP), apontou que os diagnósticos de câncer de rim, próstata e bexiga tiveram uma queda de, em média, 26% no período da pandemia em 2020, em comparação a igual período de 2019. “A ausência de informações precisas sobre a propagação e ação do vírus nos levaram a um cenário de cancelamento de procedimentos considerados urgentes, como biópsias. Pacientes com outras doenças ou sintomas também tinham medo de procurar clínicas e hospitais por medo de contrair o vírus, outro fator que pode ter influenciado na redução deste número”, analisa o oncologista. 

Assim como apontou Kelio, o medo da contaminação fez as pessoas evitarem locais potencialmente contaminados como consultórios, clínicas e hospitais. Além disso, as próprias restrições para receber pacientes em hospitais, a transferência de leitos para o tratamento da Covid-19 e a suspensão de procedimentos eletivos, incluindo o rastreamento de câncer, tiveram impacto relevante sobre esses dados.

Confira no vídeo a seguir, como está sendo os atendimentos no Hospital Bom Senhor Jesus dos Passos, de Laguna:

Texto por: Ana Luiza Cardoso, Geovana Biudes e Laura Remesso.

Áudio: Emanuella Alves, Josilaine Gonçalves e Augusto Machado.

Vídeo: Bárbara Dias, Maria Júlia Machado e Beatriz Godoy.

Editora Geral: Luiza Hennemann.

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