#ElaRepresenta: protagonismo feminino na Polícia Militar

Por Lara Silva

Formada em Pedagogia, o sonho de Márcia Helena do Nascimento Moraes era ser professora. A realidade foi outra. Ao atuar como Agente Comunitária de Saúde, ficou sabendo de um concurso para a Polícia Militar. “Fui aprovada em todas as fases do concurso. Foram nove meses de Curso de Formação de Soldados e durante esse período me apaixonei pela profissão. Sou extremamente feliz e realizada com o caminho que se tomou”, confessa Márcia. Hoje ela é Cabo da PM de Santa Catarina, onde trabalha desde 2011, e atua como instrutora do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), membro nato do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) e coordenadora do programa Rede Catarina de Proteção à Mulher, na cidade de Imbituba.

O que nem passava pela cabeça de Márcia, hoje é motivo de orgulho e muita satisfação. A cabo explica que, por ocupar um cargo composto majoritariamente por homens, transmite coragem e serve de inspiração para outras mulheres. “Muitas delas me encontram e relatam que a nossa ‘coragem’ influencia outras a buscarem a realização de um sonho ou se tornarem pessoas que sejam também exemplo para outras”. Além disso, ser reconhecida por seu trabalho é algo que vem como um prêmio para a cabo. “Sinto-me lisonjeada e privilegiada quando sou abordada por um cidadão, elogiando e admirando a função que desempenhamos, especialmente por ser mulher”, acrescenta.

Dentro da corporação, Márcia garante que não há nenhuma discriminação por parte de seus colegas homens. Por receberem o mesmo treinamento, todos são tratados da mesma forma, sem qualquer distinção de gênero. No entanto, ainda existem muitos obstáculos enfrentados por quem trabalha na Polícia Militar. “A maior dificuldade é o risco que a profissão proporciona. Durante o serviço, somos a linha de frente. Eu gosto muito de trabalhar na parte preventiva da PM e as minhas funções atualmente são voltadas para esse caminho e é isso que me motiva a trabalhar todos os dias”, destaca. Cláudia Guimarães Borges, 3º Sargento da PM, complementa a fala da colega, dizendo que além da dupla jornada que enfrenta, “o maior desafio foi na época em que eu tinha um filho pequeno, nossos horários de trabalho são diferenciados e sem creches”.

Sargento Cláudia [dir], Cabo Helena e sua mãe | Foto: Divulgação

Rede Catarinas: voz e dignidade às mulheres

Perto de completar seu primeiro ano, o Rede Catarinas é estruturado em três eixos: ações de proteção, policiamento direcionado ao problema e solução tecnológica. A violência doméstica está entre os cinco indicadores mais críticos de todas as ocorrências atendidas em todo o estado de Santa Catarina. Atenta e preocupada com o cenário catarinense, a PMSC lançou o programa em agosto de 2019. Há quatro meses, Márcia Helena está na coordenação e confessa amar trabalhar pela causa. “Direcionado à prevenção da violência doméstica e familiar contra as mulheres, o programa dá voz, dignidade, além de lhes dar orientações e proteção”. O fato de a cabo estar à frente do programa facilita também a abordagem e todo o processo enfrentado. “Nas visitas domiciliares preventivas da Rede Catarina percebo que, por ser mulher, o diálogo é diferente, é mais humanizado”, completa.

Trabalho e reconhecimento: das conquistas que marcam

Durante esses nove anos servindo a PMSC, Márcia conta que é difícil eleger apenas uma situação que marcou sua trajetória. “Todos os dias sempre tem situações bem marcantes, sejam ocorrências complexas ou o simples sorriso de um aluno dizendo que quarta-feira é o melhor dia da semana, pois tem Proerd”. Como uma das instrutoras do Programa, ela conta que vê uma oportunidade de orientar os alunos. “Penso que as crianças e adolescentes de hoje serão responsáveis pelo futuro de nossa sociedade, e através das aulas posso ajudá-los a realizar escolhas e ações responsáveis”, comenta. Além disso, ela explica que, como membro nato do Conseg, pode ajudar Imbituba a ser uma cidade mais segura. “Através das reuniões com a comunidade, identificamos, planejamos, analisamos e acompanhamos soluções de problemas de segurança e juntos construímos um bairro mais bonito e seguro”, afirma.

Cb Helena recebe carinho de aluna durante formatura do Proerd | Foto: Divulgação

E é assim, por meio de muito trabalho e dedicação que as conquistas vêm. Apesar de achar difícil compartilhar somente um acontecimento especial, algo que ela nunca esquecerá foi a promoção de Cabo da PM. “Foi uma conquista pessoal, é um concurso interno bem disputado, e eu fui aprovada. Talvez tenham mais conquistas e ascensões pela frente, mas acredito que esta promoção sempre lembrarei”, comemora.

Como tudo começou…

Embora atualmente a realidade da PM no Brasil seja diferente, por muito tempo, a inclusão de mulheres em atividades militares e policiais foi evitada. Considerada errada ou muito arriscada, no Brasil, somente a partir dos anos 1950 que a mulher passou a ter o direito de tornar-se policial, claro que ainda com muitas restrições. Em 1953, durante o 1º Congresso Brasileiro de Medicina Legal e Criminologia, a doutora Hilda Macedo apresentou uma tese afirmando que a Polícia Militar precisava de mulheres em sua corporação, visto que elas tinham tanta capacidade de exercer a profissão quanto os homens. Dois anos depois, a mando do Governador de São Paulo, na época Jânio Quadros, foi criada a primeira polícia feminina do país. No início, as mulheres não participavam de todas as tarefas que eram destinadas aos homens, ficaram responsáveis por atividades mais simples, como assistência para mulheres, crianças e jovens.

Primeira equipe de policiais femininas (1955) | Foto: AOPP

O exemplo de São Paulo, nas décadas seguintes serviu para outros estados brasileiros reconheceram o direito às mulheres de ingressarem na polícia. Com o passar do tempo, elas foram ganhando cada vez mais espaço e respeito dentro das corporações em todo o Brasil. Se no passado, sofriam com tantas restrições e discriminações, hoje mostram que o que importa não é ser homem ou mulher, mas sim ter a determinação e a persistência para alcançarem seus objetivos.

Fonte: A primeira Polícia Feminina do Brasil (1955) | História Contada