Preconceito, racismo e discriminação. Até quando?

Nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd por um policial branco, em 25 de maio de 2020, desencadeou uma série de protestos antirracistas em diversos países, apoiados no movimento Black Lives Matter.

Foto por: James Eades

A organização iniciou em 2013 e desde então ativistas norte-americanos lutam contra a violência direcionada a pessoas negras. Todos os anos, o movimento têm se manifestado contra a morte da população negra por forças policiais e suas ações ficaram conhecidas mundialmente.

No entanto, a autora do livro Pequeno Manual Antirracista, Djamila Ribeiro, mestre em Filosofia Política, explica que o combate ao racismo não pode ser apenas com ações pontuais. “A população tende a perceber o racismo como individual, quando uma pessoa negra recebe algum tipo de ataque. Ali eles se indignam e podem restringir o combate ao racismo a apenas como o repúdio moral, sem entender o funcionamento dele no sistema social”. A afirmação da ativista é detalhada em sua mais recente obra literária, lançada no final de 2019.

Apesar de serem em menor número, devido à pandemia, atos públicos aconteceram no Brasil e ao redor do mundo. O país, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem a maioria da sua população negra, correspondendo em 2019 à cerda de 56% do total de habitantes. Ao mesmo tempo em que são maioria, os negros também são os mais afetados pela violência e pela desigualdade no país, indica a Organização das Nações Unidade (ONU). A população negra está majoritariamente presente nas classes sociais mais baixas, entre os índices de desempregados, entre aqueles que não têm acesso a serviços de saneamento básico e, sobretudo, entre as principais vítimas de violências cometidas pelo Estado.

Vidas interrompidas

Tristemente, casos como o de Floyd se repetem por aqui. Em fevereiro de 2019, o jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi asfixiado até a morte, na frente da própria mãe, por um dos seguranças do supermercado Extra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. O caso gerou uma onda de protestos no Brasil, mas, como de costume, acabou silenciado pelo passar do tempo.

No ano passado, somente no estado do Rio de Janeiro, ao menos seis crianças negras foram mortas após serem baleadas em ações policiais. Em 2020, até o momento, Ítalo Augusto foi a sétima criança morta vítima de violência policial, em 1 de julho. Ele estava brincando na porta de casa, lugar onde já não é mais seguro, quando foi atingido por um disparo.

Racismo estrutural

Foram mais 300 anos de escravidão no Brasil. Até hoje, o país experimentou apenas 132 anos com esta população em liberdade e ainda tem poucas ações para diminuir os efeitos gerados pós-abolição. Desta forma, o termo racismo estrutural é recorrente nas explicações sobre a existência e a perpetuação do racismo na sociedade.

“Não conseguimos entender o nosso presente sem olhar o nosso passado. Então, se hoje a população negra do Brasil é a maioria que vive nas periferias, que são a base da pirâmide social, que passam por uma série de violações de direito, a gente precisa entender onde e como que começou, quais medidas foram tomadas e quais não foram”, destaca Djamila.

Impactos emocionais

A violência e a falta de oportunidades que o racismo estrutural gera e perpetua nos negros afeta a forma deles enxergarem o mundo e se reconhecerem nele. A psicóloga Nathalia Clemencia destaca que além ser um crime, uma ofensa e causar danos emocionais, o racismo, antes de tudo, exerce a tendência de destruir a identidade do sujeito negro. “Isso é feito com a intenção de apagá-lo, seja embranquecendo, matando ou silenciando o negro da sociedade”, acrescenta.

A profissional aponta que os estudos e a história mostram que a vivência cotidiana do racismo pode produzir situações traumáticas. “Muitas vezes, o sujeito não consegue sair deste lugar de dor e angústia. Ao não conseguir nomear o que está sentindo, gera ansiedades, instaurando quadros depressivos, entre outras dores”, lamenta.

Nathalia alerta que as consequências do racismo podem ser ainda mais graves nos jovens por conta da falta de conhecimento sobre as questões étnico-raciais. Para isso, ela indica a conversa entre os pais e os filhos para fortalecer eles durante o período escolar. “Os pais devem instruir e ficar atentos ao que acontece, monitorando os sinais de mudanças de comportamento que podem ser resultado de bullying, preconceito ou violência sofrida pelo jovem”, explica.

Neusa Santos Souza é uma psicanalista e psiquiatra negra, foi autora do livro “Torna-se Negro” (1983) e em sua introdução afirma que uma das formas de exercer a autonomia pessoal é possuir um discurso sobre si mesmo, mas para que isso seja uma realidade concreta e significativa é necessário muito conhecimento.

Assim, a psicóloga Nathalia qualifica a ação de conhecer a história negra como uma “sofrida reconstrução e aceitação, da cabeça aos pés, da própria negritude”.  Ela indica que realizar este processo de autonomia em um país como o Brasil pode ser muito difícil e desafiante para o negro.

“Esta é uma linha tênue, que muitos negros conseguem lidar e usar sua voz como um ato político, como vemos no movimento negro no Brasil. No entanto, em contrapartida, temos dados de que o suicídio entre adolescentes negros cresce no país e é 45% superior que entre brancos”, compara Nathalia.

Educação para a transformação

A escola é um local onde a educação deve propiciar, entre outras coisas, “consideração com a diversidade étnico-racial” conforme a Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013. Uma lei que busca tentar diminuir injustiças cometidas por mais de cinco séculos no Brasil contra as populações negras e indígenas, mas que ainda não resolve a situação de desigualdade de oportunidades que eles enfrentam.

Segundo o IBGE, o abandono escolar diminuiu entre os jovens pretos ou pardos de 18 a 24 anos, de 2016 a 2018, mas o acesso deles ao ensino superior ainda é inferior ao restante da população. Neste mesmo ano de estudos divulgados, obteve-se o dado de que, pela primeira vez na história do Brasil, negros eram maioria nas universidades pública, atingindo o percentual 50,3%.

Djamila destaca o papel que a educação tem como desconstrutora do racismo. “Se você vai para uma escola em que a história é contada como negros foram apenas escravos e coloca a princesa Isabel como a grande redentora, omitindo que existiram revoltas e quilombos, a gente nunca vai conseguir mudar. Pois os negros vão ser sempre vistos como vítimas de opressão e nunca como sujeitos de resistência. Sujeitos que elaboraram um mundo”, conclui.

Entende-se aqui que o espaço de luta no combate ao racismo tem o protagonismo negro, mas que não deve contar apenas com estas vozes para o defendê-lo. Já dizia a filósofa e militante estadunidense, Angela Davis: “Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. Assim, a educação, o Estado, a mídia, os poderes, enfim, a sociedade precisa dar corpo a esse discurso e cabe a cada um demonstrar através de ações práticas, diariamente, o combate ao racismo.

Com informações da entrevista de Djamila Ribeiro ao jornalista André Trigueiro, divulgada no perfil oficial dela no Instagram.
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Créditos

Reportagem em vídeo

Repórter: Leonardo Costa
Produtora: Sarah Hilgert
Editora: Bárbara Girardi

Reportagem em áudio

Repórter: Kauana Mulinari
Produtora: Silvana Maurílio
Editora: Júlia Zelindro

Reportagem em texto

Repórter: Bianca Selhorst
Fotógrafo: Vinícius Pacheco
Editor: Bruno Matos

Editora Geral: Bárbara Girardi