Processo de adoção ajuda LGBT’s a aumentar a família

Para as famílias LGBT’s, o amor fala mais alto que qualquer preconceito.

(Imagem: Reprodução)

Celebrado mundialmente em junho, o mês do orgulho LGBT+ (lésbicas, gays, transgêneros e outros grupos ligados à comunidade) pretende conscientizar sobre a importância de respeitar todas as pessoas, sem distinção. A data remete ao ano de 1969, quando houve uma rebelião em resposta aos atos abusivos das forças policiais contra o grupo LGBT. Entre as pautas presentes no movimento está a adoção, considerada, muitas vezes, um tabu pela sociedade. Dados atualizados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), mostram que, hoje, no Brasil, existem mais de 4,2 mil crianças e adolescentes disponíveis para adoção. O número de pretendentes, no entanto, é expressivamente maior: 32.658.


Entre essas mais de 32 mil pessoas, está Filipi de Oliveira Cardoso, homossexual, solteiro e que enfrenta o processo de adoção desde fevereiro deste ano, quando fez o curso de pretensão e se tornou habilitado no cadastro nacional para a prática. Desde cedo, Filipi teve o desejo de ser pai, e agora, o analista de compras está perto de realizar este sonho. Com 33 anos, está atualmente aguardando para adotar dois meninos, um de nove anos e outro, de 12. “Na mesma semana, em fevereiro, já recebi muitas ligações. Não tinha preferência por determinada cor de pele ou idade, inclusive poderia ser uma criança com doenças tratáveis. Então foi muito rápido. Meus filhos vão chegar agora em julho”, comemora.

Processo de adoção: psicóloga de Tubarão explica como funciona

Igual para todos os modelos de família, o processo de adoção não deve apresentar nenhuma distinção, seja para casais heteros, homossexuais ou pessoas solteiras, como é o caso de Filipi. “Não se espera que existam entraves burocráticos ou jurídicos”, explica Leda Pibernat Pereira, psicóloga forense da comarca do Fórum de Tubarão. Ela relata que o processo acontece da mesma forma, com o preenchimento de um cadastro no SNA e entrega de documentos pedidos pelo setor. ”Não há diferença do andamento ou dos documentos solicitados”.

Até hoje, Leda admite que acompanhou apenas duas adoções feitas por casais homoafetivos, no município. No entanto, já tem, pelo menos, um casal e um rapaz solteiro – Filipi – habilitados na lista, à espera de um filho. Segundo a profissional, caso a pessoa sinta algum tipo de discriminação, pode procurar a defensoria pública ou um advogado de confiança.

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Amor em dose dupla

Filipi conta que, assim que teve a aprovação do cadastro de adoção, já recebeu várias ligações de fóruns de todo o país. O perfil que ele traçou, como mencionado de maneira rápida anteriormente, foi de uma criança de três a 13 anos, que pudesse ter até um irmão ou portadora de doenças tratáveis. Ele acredita que o processo está sendo bastante ágil, pois começou a conversar com as crianças em abril, enquanto também resolvia as questões burocráticas. Mas nem tudo foi fácil. Logo nas primeiras tentativas, o analista não teve sucesso. “Cheguei a conversar com outras crianças, mas algumas queriam ter uma mãe. Era o desejo delas, então eu sempre respeitei”, lembra.

Aos que se dispõem a adotar crianças de qualquer cor ou estado de saúde, sem exigência de idade e ainda que acolham irmãos, o processo leva, em geral, seis meses. (Imagem: Pexels)

A adoção dos filhos de Filipi é chamada de adoção tardia, visto que as crianças têm mais que três anos de idade. ”Requer preparo para lidar com vários traumas”, admite. Quanto mais perto chega, maior a expectativa para receber os filhos. Ele ainda salienta o amor por essa família que está se formando. “Já temos uma ligação muito forte, algo sem explicação, é um momento único na minha vida”, confessa. Em um áudio encaminhado para a reportagem, um dos filhos diz para Filipi: ”Te amo, papai. Espero que a gente sempre se dê bem”.


Em relação ao receio de sofrer algum tipo de discriminação por ser homossexual e estar adotando, Filipi comenta que sempre contou com o apoio da sua família nesse sentido e acredita que haverá, sim, preconceito. “Afinal vivemos em uma sociedade de falsos moralismos, mas tenho certeza de que irei superar e vencer. O que eu quero, apenas, é o respeito dessas pessoas, porque a opinião delas não fará com que eu mude em nada a minha decisão de ser pai. O melhor pai e amigo dos meus filhos. Sou um vencedor na vida”, finaliza.

Uma família que começou na pandemia

Diferentemente de Filipi, que ainda aguarda a chegada dos filhos, Rafael César dos Santos e Luís Henrique Vieira Dalcastagne aumentaram a família quando o mundo virou de cabeça para baixo. Em março de 2020, bem no início da pandemia da Covid-19, o pequeno Kauan chegou em Itajaí e realizou o sonho do casal de serem pais. “Nosso filho nasceu com 6 anos, 20kg e 1,17m. Ele é um menino doce, obediente e muito educado, que já passou por coisas que nenhum ser humano deveria passar”, lembra o ‘Pai Rafa’, como é chamado até hoje. Em um relacionamento de 12 anos com Luke, ele conta que, quando Kauan chegou, falava todos os dias que os amava e que queria morar com eles para sempre. “Ele sempre perguntava se íamos protegê-lo, pois tinha medo que fôssemos embora”.

Apesar de ainda faltarem algumas questões jurídicas para finalizar o processo de adoção e, finalmente, Kauan receber o sobrenome dos pais, as coisas são bastante positivas. Luís Henrique, o ‘Pai Lu’, admite que o processo foi bem intenso, principalmente por se tratar de uma adoção tardia, e que foi necessário estourar a bolha que o casal vivia. “Primeiro você nunca estará preparado para assumir essa responsabilidade. Depois, precisamos nos adaptar a essa nova caminhada, que é de muito aprendizado, um amadurecimento muito rápido. Ainda estamos entendendo esse sentimento de paternidade. Obviamente já não somos as mesmas pessoas lá do início, a gente entendeu como funciona a cabecinha dele”, explica.

O Supremo Tribunal Federal reconhece a união homoafetiva como um núcleo familiar como qualquer outro e, além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente autoriza a adoção por uma única pessoa, sem fazer qualquer restrição quanto a sua orientação sexual. (Imagem: Arquivo pessoal)

Por coincidência – ou não –, Kauan completou sete anos no último dia 25 de maio, Dia Nacional da Adoção. Assim como ele, muitas outras crianças acima dos três anos de idade esperam uma família. Grande parte dos casais tem preferência por bebês, por, talvez, serem mais fáceis de cuidar. Esse é um dos motivos para Rafael e Luke dividirem sua história na internet. “Uma das coisas que a gente deseja é que muitas pessoas que sonham em adotar, percebam que a adoção tardia também pode ser uma opção e que, ao menos, levem isso em consideração”, diz Rafael, que não mede os elogios ao falar do filho. “Recebemos muitas mensagens dizendo que o Kauan tem muita sorte de ter nos encontrado. Mas, na verdade, é o contrário, nós é que temos muita sorte. O Kauan é a pessoa mais especial e incrível que eu conheço. A paternidade causa medo, estresse, momentos de choro e confusão. Mas cada “eu te amo” que ele fala, cada vez que ele chega feliz da escola mostrando um desenho de três bonecos palitos com cabeças e orelhas enormes dizendo que é a nossa família, é recompensador demais”, acrescenta.


Vivendo constantemente em uma montanha-russa de emoções, como o casal mesmo define, eles afirmam que, por muitas vezes, já ouviram comentários bastante preconceituosos em relação à orientação sexual e o grande desejo da paternidade. “Falaram que a gente nunca ia poder ter uma família e agora olha: temos uma muito linda! Eles sempre estiveram errados! Nossa vida mudou completamente no último ano, mas não se compara com a mudança que aconteceu na vida do Kauan. Ter a chance de mudar o futuro de uma criança é algo surreal. Ver a gratidão nos pequenos gestos dele faz tudo valer a pena”, finalizam os pais.

Confira os relatos sobre a LGBTfobia:

Equipe:

Texto: Bárbara Dias (Repórter), Luíza Hennemann (Editora) e Lara Silva (Fotógrafa).

Vídeo: Laura Remesso (Repórter), Ana Luíza Cardoso (Editora) e Geovana Biudes (Produtora).

Áudio: Emanuella Alves (Repórter), Augusto Machado (Editor) e Josilaine Gonçalves (Produtora).

Editora Chefe: Beatriz Godoy Taveira