Um relato da violência doméstica em Santa Catarina

A violência no Brasil é um problema grave. Ela se manifesta nas mais diversas facetas em qualquer hora e em qualquer lugar: nos centros urbanos, no trânsito, através da discriminação racial e social, da homofobia e transfobia… e machismo, este que leva a diversos casos de violência doméstica, casos estes que aumentaram de forma significante durante a pandemia da COVID-19. É deste problema que trataremos na reportagem.

Foram registradas 105.821 denúncias de violência contra mulher no Ligue 180 e Disque 100, de acordo com o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em 2020. Também de acordo com o ministério, o perfil médio das mulheres que sofrem violência inclui: ensino médio completo, renda de até um salário mínimo, 35 a 39 anos e cor declarada parda. Em relação aos suspeitos, o perfil mais comum são de homens brancos de 35 a 39 anos. (G1 – 1).

Em solo catarinense os números são assustadores. De acordo com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), cerca de 50 feminicídios são registrados por ano no estado, sendo que há mais de 40.000 processos em andamento que envolvem violência contra mulher. (TJSC – 2). Esses números preocupantes acendem um alerta a respeito da deste tipo de violência no Brasil, sobretudo no estado de Santa Catarina.

Gráfico expõe o histórico de feminicídios em Santa Catarina, dados do G1 (3).

A história que Josefina Maria Costa, de 41 anos*, nos contou revela o horror de quem já passou por relacionamentos abusivos e por violência doméstica. Ela relatou sobre o comportamento do ex-marido, que a agredia e ameaçava de morte. “No início o comportamento dele era normal e ao longo dos anos aumentaram as brigas, porque fui descobrindo algumas traições. Aumentou também o consumo de álcool. Foi quando tentei a separação, porém ele não aceitava”.

Além do vício em álcool, das agressões e traições, a vítima revela que sofria ameaças. “Ele deixou de trabalhar e me obrigava a dar dinheiro, sob ameaça, para ele ir pra farra. Certa vez fiz novamente uma proposta de separação e ele pacificamente aceitou. Nesta época, já tinha duas meninas, então resolvi visitar a irmã dele que morava em outra cidade. Quando retornei, ele havia arrombado a porta e quebrado muitas coisas na cozinha. Depois, ele entrou em casa com um revólver na mão, dizendo que iria me matar, matar as crianças e depois se matar. Minha filha mais velha fugiu e se escondeu no meu vizinho. Deixei a pequena na cama e fui atrás dela e a encontrei assustada. Consegui acalmar ela e ele, pra não nos machucar.”

Muitas atitudes do ex-marido de Josefina ficarão para sempre em sua memória. “Teve uma vez em que ele quebrou tudo dentro de casa novamente, tentou me matar e ameaçou de colocar fogo na casa.” Foi após esse evento que ela tomou uma decisão. “Resolvi ir embora e deixar tudo para trás. Conversei com minha filha novamente, ela concordou em ir embora e deixar tudo.  Falei com minha irmã e meu cunhado e eles me apoiaram.  Peguei algumas coisas, roupas e outras coisas que não chamassem atenção dele e nem dos vizinhos. Fugimos para a casa da minha irmã e de lá, outra irmã foi me buscar e fui morar com uma sobrinha que morava sozinha. Me escondi durante anos para que ele não chegasse perto de mim. Passei muitos apuros, mas consegui me livrar dele dessa forma”.

Josefina destaca que as mulheres que estão passando por uma situação de violência doméstica devem buscar ajuda. “Hoje a mulher tem muita proteção da polícia militar. O conselho que dou é que elas não se intimidem e procurem o órgão de proteção da mulher e denunciem esses agressores.”

A psicóloga Marcele Bressane comentou conosco sobre alguns comportamentos típicos de relacionamentos abusivos. Ela alerta que “uma pessoa que sofre de um relacionamento abusivo dificilmente consegue notar que está em um, por isso é essencial que as pessoas que conseguem perceber estejam ao lado de quem sofre o abuso. Acho que tem vários sinais (de relacionamento abusivo), como brigas sem razões, diminuir o outro, não deixar o outro sair.” Ela destaca que recebe muitas mulheres que sofrem violência doméstica, sobretudo psicológica. Explica que violência psicológica é onde um companheiro rebaixa ou diminui o outro. “Falam da roupa, do jeito de ser”, conclui a psicóloga.

Marcele ressaltou ainda de que formas a violência afeta o emocional da vítima: “Quando um homem machuca uma mulher acho que todas as mulheres perdem. Pois perdemos uma mulher que se ama e se empodera. Uma mulher que perde o brilho, que deixa de acreditar em si, no quanto pode conquistar. Deixa de se achar bonita, de se arrumar. Que pode revolucionar. O mundo perde com uma mulher violentada, os amigos perdem uma mulher, uma amiga. Filhos perdem uma mãe que tem tempo para ensinar para eles que isso não é amor. Enfim, acho que a violência quebra de todas as formas o emocional de uma mulher e depois é extremamente difícil e demorado recuperá-lo”.

Caso conheça alguém ou esteja sofrendo de violência, tanto psicológica quanto física, alguns dos canais para denúncia são: Disque 100, Ligue 180, mensagem no Whatsapp pelo número (61) 99656-5008, Telegram, no canal “Direitoshumanosbrasilbot”, site da Ouvidoria do Ministério e aplicativo “Direitos Humanos Brasil” (para iOS e Android).

*Nome e idade fictícios.

Fontes: (1) https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/03/07/brasil-teve-105-mil-denuncias-de-violencia-contra-mulher-em-2020-pandemia-e-fator-diz-damares.ghtml

(2) https://www.tjsc.jus.br/web/imprensa/-/violencia-contra-a-mulher-aumenta-em-santa-catarina-e-deixa-a-rede-de-apoio-em-alerta-parte-1

(3) https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2021/01/09/feminicidio-sc-perdeu-uma-mulher-por-semana-para-violencia-de-genero-em-2020.ghtml

Equipe: 

Texto: Eduardo Mota (Repórter), William Andrades (Editor) e Maria Luiza (Fotógrafa) 

Vídeo: Estér Martins (Repórter), Jean (Editor) e Kamila Melo (Produtora). 

Áudio: Vinícius Barbosa (Repórter), Higor Stork (Editor) e Amanda Pase (Produtora). 

Editor-chefe: Fhillype Costa